
(Padre Carlos)
Estamos assistindo, no Brasil, à consolidação de um fenômeno que mistura pragmatismo, desespero e cinismo político: a multiplicação das chamadas federações partidárias. A justificativa oficial é elegante — evitar a pulverização do sistema político e fortalecer o jogo democrático. Mas, por trás dessa fachada institucional, o que realmente se observa é um balcão de negócios eleitorais que evidencia o esfacelamento da identidade programática dos partidos.
Das 20 siglas com representação no Congresso Nacional, 15 já estão federadas ou articulam federações. A lógica é clara: ou os partidos se unem, ou desaparecem. A cláusula de barreira, instituída pela Emenda Constitucional 97/2017, criou um cerco. Para receber fundo partidário e tempo de rádio e TV, será preciso atingir um desempenho mínimo — o que empurra os partidos menores para os braços das grandes máquinas partidárias.
É compreensível que se busquem saídas diante desse novo ambiente jurídico-eleitoral. O problema está na qualidade dessas saídas. O que temos são alianças forjadas às pressas, entre partidos que muitas vezes representam espectros ideológicos antagônicos. O eleitor, já exausto de um sistema confuso e distante de suas reais necessidades, agora encara um novo desafio: entender quem é quem nesse conluio disfarçado de federação.
A federação entre o PT, PCdoB e PV, por exemplo, tem um mínimo de coerência ideológica, mesmo que enfrente tensões internas. Mas a maioria revela a face mais crua do pragmatismo: busca pura por poder, por fundo eleitoral bilionário e por hegemonia nas comissões do Congresso. É a transformação do partido político em corporação eleitoral.
O caso do PSDB, outrora símbolo de um centro liberal razoável, hoje circula em rodas que vão do Republicanos ao MDB, passando por Solidariedade, Podemos e PSD, como um náufrago à deriva em busca de qualquer tábua que o mantenha à tona. O mesmo vale para o PSB, que flerta com o Cidadania, mas também com o PT, dependendo da direção dos ventos.
Não pode deixa de reconhecer o gesto heroico e sensato do Cidadania, quando o partido decidiu romper com a federação com o PSDB deixando claro que não havia coerência aquela aliança e a perda de identidade provocada pela criação daquela federação estava colocando em risco a herança de um século de caminhada. A decisão foi tomada pelo Diretório Nacional do partido e anunciada no domingo, 16 de março. A federação, fundada em 2022, será desfeita, com o Cidadania buscando fortalecer sua própria estrutura e buscar novas alianças dentro do campo democrático.
O resultado disso é a completa descaracterização ideológica. Partidos se fundem ou se federam não por afinidade programática, mas por puro cálculo de sobrevivência. A política se converte em matemática eleitoral: votos, cadeiras, tempo de TV, dinheiro. E o povo? O povo continua como espectador cético de uma encenação onde todos falam em democracia, mas poucos a praticam de fato.
O que se apresenta como solução para a fragmentação do sistema, na verdade, aprofunda a concentração de poder nas mãos de poucos caciques partidários, em detrimento da renovação política. As bases locais, muitas vezes ignoradas, veem suas lideranças sendo sufocadas por decisões de cúpula que nada têm a ver com os contextos regionais. A federação, ao contrário da coligação, é nacional, uniforme e obrigatória por quatro anos. Um casamento forçado, com cláusula de fidelidade partidária, mesmo quando o amor nunca existiu.
E aqui reside o maior risco: a perda de confiança do eleitor. Quando partidos se juntam por conveniência, quando as ideologias são postas de lado, quando os acordos são costurados em gabinetes sem o mínimo diálogo com as bases, o que sobra é um sistema que se autorreproduz — sem legitimidade, sem representatividade, sem alma.
A federação PSOL-Rede ainda resiste como exceção, com alguma coerência programática. Mas é minoria. O que predomina é o pragmatismo eleitoral, o fisiologismo travestido de estratégia, a política como engenharia fria de resultados.
Precisamos de um sistema político mais justo, sim. Mas um sistema que não abra mão da identidade, da coerência e da ética. A reforma política brasileira, se quiser ser verdadeira, precisa olhar para a base da democracia: o eleitor. E o eleitor não se sente representado por fusões que ignoram seus valores. A federação, como está sendo operada, pode até salvar partidos da extinção. Mas está matando a política de verdade — aquela que nasce do povo e volta para ele.




