
(Padre Carlos)
O Supremo Tribunal Federal, que tanto preza pela imagem de unidade e colegialidade, vive hoje uma fissura pública e dolorosa. O voto do ministro Luiz Fux na Primeira Turma não apenas abriu uma divergência jurídica — o que é natural e até saudável na vida de qualquer corte constitucional —, mas trouxe consigo um mal-estar que se estendeu além das paredes do plenário. A reação de seus pares, carregada de recados velados e gestos simbólicos, expôs que a tensão deixou de ser apenas técnica e se converteu em política interna.
O gesto de Gilmar Mendes ao comparecer ao plenário, descrito por ele próprio como uma demonstração de solidariedade a Alexandre de Moraes, não foi um ato protocolar. Foi um sinal de alinhamento e, mais que isso, de desconforto. Gilmar reconheceu a tristeza diante do ocorrido e apontou, ainda que de forma diplomática, para o tamanho da fratura que se abriu. A presença física, nesse caso, valeu mais que palavras — representou uma mensagem direta a Fux: o colegiado caminha em outra direção.
Na leitura dos bastidores, o que mais causou indignação não foi a divergência em si, mas o modo como ela foi construída. Fux não apenas se apartou da maioria; fez provocações, tensionou colegas, e impediu que respostas fossem dadas em tempo real. Esse estilo deixou cicatrizes. Não por acaso, o clima do dia seguinte foi de recados públicos e falas direcionadas, deixando claro que o Supremo, acostumado a administrar crises externas, agora administra uma interna.
A frase do ministro Flávio Dino, ao dizer que “os critérios aplicados ao jardineiro devem ser aplicados ao dono da casa”, sintetiza a dimensão do choque. Dino apontava a contradição de Fux: endossou a dureza contra centenas de réus dos atos golpistas, mas absolveu justamente aquele que a maioria considerou o articulador da trama. A crítica, ainda que indireta, teve endereço certo e ecoou como uma acusação de incoerência.
O resultado é um Fux isolado, desconfortável e visto como alguém que contrastou não apenas com Moraes, Gilmar, Cármen Lúcia, Dino ou Zanin, mas consigo mesmo — como se a divergência tivesse aberto fissuras em sua própria trajetória dentro da Corte. O Supremo, que tenta preservar sua aura de unidade em tempos de ataques externos, expõe hoje uma fragilidade interna que preocupa. A colegialidade, esse cimento simbólico que sustenta o tribunal, mostrou-se rachada.
E quando o STF deixa ver suas divisões de maneira tão explícita, não é apenas uma questão de egos ou de votos divergentes. É a credibilidade da instituição que entra em jogo. Afinal, como confiar plenamente em um tribunal cuja harmonia interna se mostra em frangalhos? Essa é a fratura exposta que o voto de Fux deixou no ar.




