Política e Resenha

ARTIGO – A GÊNESE DE BOLSONARO: DA CELA MILITAR AO PLANALTO

 

(Padre Carlos)

Setembro de 1986. Uma nota quase invisível em um jornal carioca registrava: um capitão paraquedista havia sido preso por indisciplina. Quinze dias de cela. Era o nascedouro público de Jair Bolsonaro. Nascia, não o estadista, mas o personagem que faria da afronta e da bravata o seu método. Um ano depois, o mesmo periódico estampava outra manchete: acusado de planejar explodir quartéis. O militar medíocre transformava a subordinação em capital político barato.

Três décadas mais tarde, já dentro do Congresso Nacional, ele ousava exaltar o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra como herói. Ustra, que a história registra como o algoz que arrancava unhas de crianças. Pela “memória” do torturador, Bolsonaro cravava seu discurso e alimentava sua narrativa de violência.

Chegado ao Planalto, o método se radicalizou. Negou a arte, reduziu a educação, aparelhou a Polícia Federal, implodiu as políticas de proteção aos povos originários. Tratou o meio ambiente como moeda de troca e, em plena pandemia, deixou a boiada passar. Diante da maior tragédia sanitária da história recente, minimizou a dor de milhões ao chamar de “gripezinha” o vírus que matou mais de 700 mil brasileiros.

Negou vacinas, insistiu em cloroquina, zombou da morte com a frase que ficará marcada para sempre: “E eu não sou coveiro, tá vendo?”. Enquanto famílias enterravam seus mortos em covas coletivas, o presidente ria. O sarcasmo se misturava com o cheiro da morte.

Mas a justiça tem memória. A história tem arquivo. O Brasil, que canta ser gigante pela própria natureza, descobriu que o seu líder rastejava sob bandeiras estrangeiras. Afinal, que patriota tremula estrelas e listras em pleno 7 de setembro, dia da independência nacional?

Da cela por indisciplina ao púlpito do Planalto, Bolsonaro trilhou o caminho da bravata. Agora, cabe ao povo escrever o capítulo final de uma farsa que tentou travestir violência de patriotismo e indiferença de liderança.