
(Padre Carlos)
O cenário político brasileiro entrou em ebulição. Aquilo que a direita jurava estar consolidado — quase como uma vitória antecipada — começa a ruir por dentro, com rachaduras cada vez mais visíveis. O bolsonarismo, que se apresentava como bloco monolítico, revela agora sua face mais frágil: a incapacidade de administrar disputas internas, egos familiares e acordos nacionais que sacrificam lideranças regionais em nome de uma estratégia de poder centralizada.
Santa Catarina, vitrine histórica da direita brasileira, tornou-se o símbolo mais eloquente dessa crise. A saída de Carol de Toni do PL — deputada federal mais votada do estado — não é um fato isolado nem um simples rearranjo partidário. Trata-se de um terremoto político. Uma expulsão silenciosa, costurada nos bastidores, em que a lealdade foi rifada para abrir espaço a imposições vindas de cima, sobretudo pela sombra longa do sobrenome Bolsonaro e pela chegada de Carlos Bolsonaro ao tabuleiro catarinense.
O recado é claro: na nova lógica do bolsonarismo, votos, história e enraizamento local pesam menos do que a obediência irrestrita ao clã. O resultado imediato é um racha profundo na direita catarinense, que agora se divide entre os que aceitam a tutela familiar e os que buscam novos caminhos, novos partidos e novas lideranças. Quando a principal figura eleitoral do estado é descartada como peça substituível, algo está muito errado no comando do jogo.
E não se trata apenas de Santa Catarina. O que se vê nos estados reflete um movimento nacional mais amplo. A direita brasileira vive um processo de implosão. Fragmentada, sem projeto comum e disputando migalhas de um eleitorado que já não é tão fiel quanto se imaginava. Parte do Centrão, sempre pragmática, já fareja mudança de ventos e se aproxima de Lula para costurar acordos, cargos e sobrevivência política. Ideologia, como sempre, fica em segundo plano quando o poder real muda de endereço.
Ao mesmo tempo, a candidatura de Ronaldo Caiado no PSD funciona como mais um fator de dispersão. No Nordeste e no Sudoeste, onde a direita já é minoritária, Caiado divide os poucos votos que poderiam migrar para um nome bolsonarista competitivo — como Flávio Bolsonaro ou qualquer outro herdeiro político do clã. Em vez de somar, a direita subtrai. Em vez de convergir, pulveriza.
O efeito disso tudo é direto e mensurável. A implosão da direita eleva o patamar da campanha presidencial de 2026 e recoloca Lula no centro do tabuleiro como o grande beneficiário do caos adversário. Com a oposição fragmentada, sem narrativa unificada e sem liderança consensual, cresce a possibilidade real de uma vitória no primeiro turno. Não por genialidade estratégica apenas, mas pela incapacidade da direita de se organizar como força nacional coesa.
A política, como a história, não perdoa arrogância. Quem acredita que o jogo está ganho antes da hora costuma ser surpreendido pela realidade. Santa Catarina foi apenas o primeiro abalo sísmico. Outros virão. E, se nada mudar, o bolsonarismo corre o risco de assistir à próxima eleição não como protagonista, mas como espectador de luxo de sua própria desagregação.




