(Padre Carlos)
Há uma espécie de pureza perigosa habitando certas togas no Brasil. É o legalismo dos ingênuos, dos que acreditam que a letra fria da lei pode deter a astúcia dos que transformaram a mentira em método político. O caso da inelegibilidade de Jair Bolsonaro — declarada pelo TSE por abuso de poder político e uso indevido do Palácio da Alvorada — tornou-se mais do que um julgamento jurídico. É um espelho que revela o abismo entre o idealismo formal da Justiça e a brutalidade real do poder.
Os juízes legalistas são, muitas vezes, os inocentes úteis do autoritarismo. Julgam como se a política fosse um jardim de normas e não um campo de serpentes. Acreditam que neutralidade é virtude, quando na verdade pode ser cumplicidade. E assim, entre votos “técnicos” e justificativas “constitucionais”, o jogo ideológico segue se movendo sob a aparência de imparcialidade.
A movimentação do ministro Luiz Fux — ao pedir transferência da Primeira para a Segunda Turma do STF — é emblemática. O gesto, travestido de rotina, tem o perfume de uma jogada política. Não há ingenuidade em quem conhece o tabuleiro do Supremo. A ingenuidade está, isso sim, nos que ainda acreditam que o STF é um templo imune às paixões do poder. O pedido de Fux pode, eventualmente, abrir caminho para beneficiar Bolsonaro em seu recurso. Mas o que espanta não é a manobra — é a candura de quem finge não enxergar.
O Brasil vive um paradoxo: quanto mais falamos em ética, mais o moralismo serve aos interesses da extrema direita. O puritanismo jurídico, em nome da pureza institucional, torna-se um escudo para os que conspiram contra a própria democracia. André Mendonça e Nunes Marques — notórios bolsonaristas travestidos de juízes — não se declaram impedidos, porque sabem que o jogo é político. E, no xadrez do poder, só perde quem acredita que as peças são neutras.
A ingenuidade dos juízes legalistas é o óleo que lubrifica as engrenagens da manipulação. Eles se prendem às aparências, aos rituais, às tecnicalidades, enquanto o país é corroído por dentro. Pensam estar protegendo a lei, quando na verdade estão desarmando a Justiça diante dos espertos. E o esperto, no Brasil, é sempre o que se disfarça de vítima e faz da toga um escudo moral.
A democracia brasileira não morre por golpes escancarados, mas por ilusões jurídicas. O perigo não está apenas nos autoritários — está nos inocentes que acreditam que basta aplicar a lei para deter o mal. A história, porém, mostra que o mal se adapta, aprende a falar o idioma do direito, e se infiltra nas salas dos tribunais.
No fim, o que destrói a República não é a malícia dos poderosos, mas a ingenuidade dos juízes que ainda acreditam em anjos no inferno da política.





