Política e Resenha

ARTIGO – A injustiça que recai sobre Natan da Carroceria

 

(Padre Carlos)

Apesar de não ter procuração alguma para sair em defesa do vereador Natan da Carroceria, sinto-me impelido — como articulista e como cidadão atento à cena política local — a expressar minha indignação com o que se configura, até aqui, como um verdadeiro ataque à legitimidade do voto popular. Se há uma vítima nesse imbróglio judicial, essa vítima é Natan. E, por extensão, o povo que ele representa.

Natan não é um político fabricado em gabinete refrigerado nem apadrinhado por grupos poderosos. É uma liderança nascida do chão batido da periferia, moldada pelo suor de quem carregou sonhos sobre carrocerias e ergueu sua voz para ecoar a dor e a esperança do povo do Coveima, da Patagônia e de tantos bairros esquecidos de Vitória da Conquista. Um homem simples, de fala direta, mas de ação constante — reconhecido até por adversários como alguém que não se esconde do povo.

É exatamente por isso que sua cassação soa tão amarga. O que está em julgamento aqui não é apenas um suposto uso de candidatura fictícia — algo que, aliás, precisa ser apurado com o devido rigor e em respeito à legislação eleitoral. O que está sendo ameaçado, no fundo, é o mandato de um representante legítimo da periferia, eleito com votos reais, de gente de carne e osso.

O vereador Natan não é acusado de fraude. Não consta contra ele qualquer ação direta ou pessoal na inscrição da suposta candidatura laranja. O que está sob investigação é a conduta do partido Avante, e não do parlamentar individualmente. E aqui cabe uma pergunta que clama por resposta: deve-se punir o soldado por erro — ou crime — de seu comandante?

O vídeo publicado por Natan, em que reafirma sua permanência no cargo e anuncia a ida a Brasília para recorrer da decisão, é mais que um gesto político: é um grito de resistência. Ele não está apenas defendendo sua cadeira, mas a representatividade de uma parcela da população que raramente vê um dos seus chegar ao Parlamento.

O sistema político brasileiro já é perverso o suficiente para limitar o acesso dos pobres, dos pretos, das mulheres e dos periféricos às instâncias de poder. Quando um desses consegue romper a cerca, a justiça — que deveria ser escudo dos fracos — aparece, por vezes, como espada a serviço dos mais fortes.

É preciso dizer, com todas as letras: a punição de um partido não pode apagar a vontade do povo. O voto não pode ser tratado como peça descartável de um jogo jurídico. E se, de fato, houve má-fé por parte do Avante, que se responsabilize a legenda — mas que se preserve o mandato legitimamente conquistado por quem nada tem a ver com isso.

Que o Tribunal Superior Eleitoral julgue com justiça, sensibilidade e atenção à soberania do voto. E que Natan, com a coragem de quem veio de longe e venceu muitos obstáculos, continue a lutar — não apenas por si, mas por todos aqueles que ainda acreditam que a política pode ser instrumento de transformação.

Neste momento, mais que nunca, o povo precisa de vozes que não se calem.