Política e Resenha

ARTIGO – A Justiça Bate à Porta: A PF, Bolsonaro e o Fio Tenso da Democracia Brasileira

 

(Padre Carlos)

A sexta-feira amanheceu com sirenes abafadas pelo silêncio tenso dos condomínios nobres de Brasília. A Polícia Federal bateu à porta do ex-presidente Jair Bolsonaro, numa operação que também incluiu a sede do Partido Liberal, localizada em um conhecido hotel na área central da capital federal. Foi uma visita rápida, porém simbólica. O relógio marcava pouco mais de oito da manhã quando os agentes federais já deixavam o Jardim Botânico, levando consigo documentos e, talvez, novas provas.

Ainda que as informações sejam fragmentadas, o cenário é grave. Medidas restritivas estariam sendo estudadas, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica — algo inédito na história republicana brasileira para um ex-presidente. O passaporte de Bolsonaro já havia sido recolhido anteriormente, numa clara tentativa de evitar fuga. Agora, a Justiça parece avançar uma casa, mostrando que o cerco jurídico se estreita, e que ninguém está acima da lei — pelo menos na teoria constitucional.

A pergunta que ecoa em Brasília — e em todo o Brasil — é: estamos testemunhando a reta final de um processo que busca responsabilizar Jair Bolsonaro por seus atos à frente do Palácio do Planalto? Ou seria esta mais uma peça de um xadrez político onde os jogadores ainda movem-se nas sombras?

A operação foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, provavelmente por decisão do ministro Alexandre de Moraes, protagonista de embates firmes com o bolsonarismo. A sede do PL, partido que acolheu o ex-presidente, também foi alvo, o que sinaliza que as investigações podem ir além de Bolsonaro e alcançar toda a engrenagem política que o sustentou — e que, até hoje, o protege.

O Brasil vive um momento delicado. De um lado, parte da população ainda idolatra Bolsonaro como símbolo de uma direita que se sente excluída e incompreendida. De outro, cresce a consciência de que o Estado Democrático de Direito precisa se consolidar com instituições fortes, sem exceções nem imunidades seletivas. A Justiça não pode — nem deve — ser partidarizada. Mas tampouco pode se acovardar diante de indícios robustos.

Essa operação da PF, ainda sem todos os seus elementos revelados, tem um peso simbólico avassalador. Mostra que há um esforço institucional em responsabilizar aqueles que atentaram contra a democracia brasileira, seja no campo das fake news, seja na trama golpista que ainda paira como ameaça. E mostra também que a impunidade, tão habitual nos porões do poder, talvez esteja começando a ter um fim.

Que esta sexta-feira fique marcada não por paixões políticas cegas, mas por um alerta à República: quem fere a Constituição, mais cedo ou mais tarde, será chamado a prestar contas. Que se faça justiça. E que ela não se curve nem ao ódio nem ao aplauso.