
Padre Carlos
O que acontece quando uma cidade decide lembrar?
Ontem à noite, no foyer do Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, não foi apenas o lançamento de um livro. Foi um gesto. Um gesto público contra o esquecimento. Um gesto contra a anestesia moral que, pouco a pouco, transforma a barbárie em rodapé de apostila.
O romance Tempo de Intensa Crueldade – Resistência mantida pela luta e pelo amor, de Ana Isabel Rocha Macedo, não é apenas literatura sobre a ditadura militar brasileira (1964–1985). É um acerto de contas com a memória. E, sobretudo, um convite às novas gerações para compreender que a democracia não nasceu pronta — foi parida sob gritos, silêncio e coragem.
Deixe-me lhe dizer algo ao pé do ouvido, leitor: quem não conhece a dor que fundou sua liberdade corre o risco de entregá-la por distração.
Ana Isabel, com quase três décadas de docência na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, não escreve como quem observa de fora. Ela escreve como quem atravessou o tempo com os olhos abertos. Militante em grêmios, na Associação de Docentes, na Comissão Justiça e Paz, nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), ela costura — como a própria define — retalhos de realidade com linhas de ficção.
Mas não se iluda: a ficção aqui não suaviza a brutalidade. Ela a humaniza.
Tortura. Prisões arbitrárias. Desaparecimentos. Censura. Medo.
Palavras que, para muitos jovens, soam distantes. Para outros, ainda latejam.
Há uma cena — a do adolescente preso numa cela marcada por vestígios de violência — que não é mero recurso literário. É memória regional. É sudoeste baiano. É Brasil profundo. É aquilo que não entrou nos livros didáticos.
E aqui reside o ponto de virada desta reflexão: não estamos diante de um romance que revive apenas a violência explícita do regime. O livro revela algo mais sutil e talvez mais devastador — a violência do silêncio. A autocensura. O medo que entrava nas escolas, nas igrejas, nas casas.
Quando a autora confessa que sabia de coisas que não contou aos alunos por receio, ela faz algo raro: expõe a fragilidade humana dentro da resistência. E isso é grandeza ética. Porque memória sem honestidade vira propaganda; memória com verdade vira consciência.
A obra mergulha também na força subterrânea das Comunidades Eclesiais de Base, onde fé e política caminhavam de mãos dadas sob vigilância. Alfabetização de adultos inspirada em Paulo Freire — às vezes disfarçada para escapar da repressão — transformava sílabas em libertação. Um homem de 73 anos juntando letras como quem junta dignidade. Isso não é metáfora. É história viva.
A Teologia da Libertação aparece como horizonte moral. Uma Igreja dividida, é verdade — parte silenciando, parte abrindo conventos e mosteiros para proteger perseguidos políticos. E, no centro de tudo, mulheres. Sempre mulheres. Laura, Zenaide, religiosas anônimas. Guardiãs da vida, da memória, da esperança.
E então o foyer silencia.
O advogado e historiador Rui Herman Medeiros, figura de referência em Vitória da Conquista, toma a palavra. Sua fala não foi protocolo. Foi testemunho cívico. Ao prefaciar a obra, ele reafirma um princípio que deveria ser cláusula pétrea da consciência nacional: sem memória histórica não há cidadania plena. Sua intervenção trouxe densidade jurídica e perspectiva histórica ao debate, lembrando que a Constituição de 1988 não surgiu por concessão graciosa, mas por pressão social e resistência acumulada.
Em seguida, o jornalista e cantor Elton Becker acrescenta outra camada: a dimensão cultural. Ele recorda que literatura transforma estatísticas em rostos, números em histórias, dor em aprendizado coletivo. E quando a música ecoa — quando o violão se torna personagem — percebe-se que arte e política nunca foram estranhas entre si. A cultura sempre foi território de resistência.
Há, neste lançamento, uma lição estratégica para quem pensa o Brasil contemporâneo. Em tempos de polarização, revisionismo histórico e desinformação digital, falar de ditadura militar brasileira com rigor, sensibilidade e coragem é um ato de responsabilidade pública. Não se trata de revanchismo. Trata-se de verdade histórica.
E a verdade, quando bem narrada, tem força pedagógica.
Este romance dialoga com temas que continuam urgentes: democracia, direitos humanos, memória política, violência de Estado, papel da Igreja, protagonismo feminino na resistência, educação libertadora. São palavras-chave que não pertencem apenas aos mecanismos de busca do Google. Pertencem à busca moral de um país que ainda aprende a se reconhecer.
O lançamento no Centro de Cultura não foi um evento isolado. Foi um símbolo de que Vitória da Conquista — tantas vezes tratada como periferia geográfica — ocupa o centro do debate sobre memória e cidadania.
Literatura não muda o passado. Mas impede que ele seja reescrito pelos vencedores do momento.
E é aqui que termino com a pergunta que nos atravessa: se a crueldade foi intensa, a resistência foi maior?
Ontem à noite, olhando os olhos atentos da plateia, ouvindo a densidade de Rui Herman Medeiros e a sensibilidade artística de Elton Becker, a resposta parecia clara.
A luta continua.
Mas, enquanto houver memória, ela nunca será em vão.




