Política e Resenha

ARTIGO – A morte de Juliana Marins e a indiferença diante da tragédia anunciada

 

(Padre Carlos)

Há tragédias que não deveriam acontecer. E, quando acontecem, revelam a crueza de um sistema global que normaliza a morte de uma jovem brasileira numa cratera de vulcão a milhares de quilômetros de sua terra natal. Juliana Marins, 26 anos, caiu no Monte Rinjani, na Indonésia, na madrugada de um sábado. Seu corpo só foi alcançado por equipes de resgate três dias depois. Estava viva no dia seguinte, mas imobilizada. Morreu à espera de um socorro que chegou tarde demais.

A história de Juliana poderia ser apenas mais uma estatística das centenas de acidentes em trilhas perigosas mundo afora. Mas ela escancara algo maior: a fragilidade das estruturas internacionais de resgate, a negligência na resposta emergencial, o peso do “ser estrangeiro” em países onde a vida de um turista parece valer menos que o tempo de um drone. E, acima de tudo, a invisibilidade da dor brasileira no exterior, quando não há um governo forte ou instituições que assumam a linha de frente em nome dos seus cidadãos.

O Monte Rinjani, segundo maior vulcão da Indonésia, é deslumbrante, sim — e traiçoeiro. Sua beleza engana. Suas bordas são vertiginosas, as condições climáticas imprevisíveis, a comunicação precária. O alerta foi dado tardiamente: só horas depois do acidente, quando um membro do grupo conseguiu, exausto, descer a pé até um posto de atendimento. Em pleno 2025, ainda morremos por falta de rádio, helicóptero ou protocolo.

Juliana não estava sozinha. Estava em grupo. Estava em um dos destinos turísticos mais visitados do país. Estava viva no domingo. E ainda assim, foi deixada à própria sorte, como se a geografia decidisse quem merece viver ou morrer. A confirmação da morte, na terça-feira, não foi um desfecho — foi um retrato cruel de abandono. De um Estado indonésio incapaz ou despreparado, de uma rede diplomática brasileira silente, e de uma realidade onde o tempo, para os pobres e os que vêm de longe, corre mais devagar.

Não se trata de procurar culpados imediatos. Trata-se de reconhecer a falência dos sistemas globais de proteção ao viajante. A tragédia de Juliana levanta perguntas incômodas: onde estavam os protocolos de emergência do parque nacional? Por que não há presença obrigatória de guias especializados com rádios de longo alcance? Por que o consulado brasileiro demorou a atuar com firmeza? E sobretudo, por que a vida de uma jovem brasileira não mobilizou com mais urgência os organismos internacionais?

Juliana amava a natureza, as trilhas, a vida. Seu corpo foi encontrado a 500 metros abaixo da borda da cratera. A profundidade não era apenas geográfica — era simbólica. Ali também estavam os abismos de um mundo onde os jovens são empurrados para o turismo de risco, alimentado por redes sociais que romantizam aventuras perigosas sem medir os riscos.

Aos que ficam, resta o luto e a indignação. Aos governos, o dever de rever políticas de proteção consular. Às famílias, a dor que jamais será reparada. E à memória de Juliana, o compromisso de não deixar sua morte ser mais um caso abafado pela burocracia e pelo esquecimento.

Porque Juliana era uma de nós. E quando um de nós morre assim, todos perdemos.