
(Padre Carlos)
Quem me conhece sabe: nunca calei minha voz diante da injustiça. Sou militante dos direitos humanos e, por princípio, jamais desviarei os olhos da dor humana. E é justamente por isso que escrevo este artigo – com indignação, mas também com um profundo senso de responsabilidade – sobre a escalada inaceitável da violência urbana que assola a Bahia e mergulha nossas cidades em um clima de verdadeiro pânico coletivo.
O assassinato brutal da jovem Aline Sousa, executada a tiros na frente dos filhos em sua própria casa, em Itarantim, é mais do que um crime bárbaro. É um símbolo estarrecedor do fracasso do Estado em garantir o direito mais básico de todos: o direito à vida. Como se não bastasse, sua irmã Lauren foi morta no mesmo local cinco anos antes. Duas irmãs, dois feminicídios, dois registros que gritam por justiça, mas que se somam a tantos outros arquivados na frieza das estatísticas.
Os números não mentem, mas também não choram. Por isso cabe a nós, cidadãos conscientes, transformá-los em clamor. A Bahia, segundo dados recentes, está entre os estados com maiores taxas de homicídios do país. Cidades como Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Itabuna e Juazeiro figuram, ano após ano, entre as mais violentas do Brasil. E o mais doloroso é que esta realidade já não choca, já não revolta como deveria – tornou-se rotina.
Não tocar neste tema seria assumir uma postura covarde, semelhante à da avestruz que enfia a cabeça na areia. Não quero e não posso ser cúmplice do silêncio. O que ocorreu em Itarantim não é um caso isolado, mas parte de um padrão de barbárie que vem se intensificando, alimentado por omissões históricas, ausência de políticas públicas estruturantes e a atuação desenfreada de facções criminosas que hoje picham muros como se pudessem assinar seus próprios decretos de poder sobre vidas inocentes.
Quando o medo substitui a esperança, quando os tiros calaram o futuro de mães, filhos, irmãos e amigos, é sinal de que falhamos como sociedade. E a responsabilidade não é apenas do governador, do prefeito ou do secretário de segurança. É coletiva. Porque enquanto não exigirmos com veemência uma reformulação real das políticas de segurança pública, continuaremos enterrando jovens, mães e pais, vítimas da nossa omissão.
É preciso coragem para enfrentar esse monstro de frente. E coragem, neste caso, significa mais do que reforço policial. Significa educação de qualidade, oportunidades reais, inteligência policial, integração entre os poderes e combate sério ao tráfico de armas e drogas. Significa também um pacto pela vida, que ultrapasse governos e legislaturas e se baseie no respeito inegociável à dignidade humana.
Ao denunciar, não estou atacando. Estou defendendo. Estou estendendo a mão às vítimas, às mães que choram, às crianças órfãs e aos milhares de baianos e brasileiros que já não conseguem dormir em paz. Estou dizendo que não aceito viver num estado onde a morte parece mais certa do que o amanhã.
Aline e Lauren mereciam viver. E nós merecemos um futuro em que casos como esse sejam exceção – não rotina. Por isso, hoje, mais do que nunca, é tempo de levantar a voz. Porque o silêncio, neste caso, também mata.




