
(Padre Carlos)
O mais recente levantamento do Datafolha não deixa espaço para ilusões: 76% dos brasileiros se identificam como petistas ou bolsonaristas. Apenas 18% se dizem neutros e 6% não se encaixam em nenhuma dessas categorias. É o retrato de um país que, mais do que nunca, vive em trincheiras ideológicas, onde o centro político parece ter se transformado em um campo minado e pouco frequentado.

O curioso — e preocupante — é que não estamos diante de um jogo de soma zero, onde o avanço de um lado significa a perda do outro. Aqui, os dois polos crescem simultaneamente, como se o Brasil fosse esticado por cordas presas em direções opostas. O resultado é um tecido social tensionado ao limite, pronto para se rasgar a qualquer puxão mais forte.
Essa polarização não é apenas estatística. Ela é emocional. É a radicalização do discurso, onde a razão se submete à paixão partidária e o diálogo se converte em ataque pessoal. É a dificuldade de governabilidade, pois a oposição deixa de ser fiscalizadora para ser destrutiva, enquanto a base governista age muitas vezes mais por lealdade cega que por convicção. É também a corrosão da confiança nas instituições, sempre vistas como agentes de um complô orquestrado pelo “outro lado”.

No meio desse embate, resta um grupo de 18% que se declara neutro. Não é exagero dizer que, nesse pequeno espaço, reside a última reserva estratégica da democracia brasileira. Neutros não são, necessariamente, apáticos. Alguns estão cansados de uma disputa que nada resolve; outros, desiludidos com a política como um todo. O desafio é atraí-los para o debate público sem forçá-los a escolher um lado, pois é justamente essa liberdade de não se alinhar que pode oxigenar o diálogo nacional.
A pesquisa do Datafolha não apenas mede preferências políticas — ela revela o estado febril de um país dividido. Entender essa divisão é o primeiro passo para superá-la. Mas é preciso coragem: a coragem de ouvir sem atacar, de debater sem humilhar e de reconhecer que nenhum país se constrói apenas com a metade de sua população.
Se quisermos um Brasil que avance, teremos de aprender a construir pontes sobre o abismo que nós mesmos cavamos. Porque, no fundo, ou vencemos juntos, ou perderemos sozinhos.




