
Padre Carlos
A política tem uma característica que muitos fingem não ver, mas todos conhecem muito bem: ela não cultiva memórias longas. No exercício do poder, gratidão raramente é moeda corrente. O que realmente pesa na balança é a utilidade política do momento. Quando essa utilidade desaparece, a engrenagem segue adiante sem olhar para trás. Em outras palavras: a fila anda.
Na Bahia, os movimentos mais recentes da base governista revelam com clareza essa lógica silenciosa e pragmática do poder. Ao afirmar publicamente que o PSD terá espaço garantido na chapa majoritária, o governador Jerônimo Rodrigues não fez apenas um gesto de reconhecimento político ao senador Otto Alencar. Fez algo mais profundo: reposicionou o tabuleiro da sucessão eleitoral.
E, em política, quando o tabuleiro muda, sempre existe alguém que perde espaço.
Quem parece ter sentido esse deslocamento com maior intensidade foi o MDB.
Durante anos, o partido ocupou uma posição relevante na engenharia política construída pelo PT na Bahia. Foi aliado constante, ajudou a ampliar a base institucional do governo e serviu como ponte com setores tradicionais da política baiana. Em momentos delicados, o MDB ofereceu estabilidade e musculatura parlamentar.
Mas a política é movida por uma regra não escrita: aliança não é casamento — é contrato de conveniência.
E contratos, como se sabe, podem ser revistos quando deixam de atender aos interesses de quem os assinou.
A cena política recente tem algo de simbólico. Enquanto Jerônimo reforçava a importância do PSD na futura chapa majoritária, ao seu lado estava o vice-governador Geraldo Júnior, representante do MDB. A imagem era quase uma metáfora viva do momento político: um aliado ao lado do poder, mas possivelmente já fora do centro das decisões.
Na política, os gestos dizem muito, mas os silêncios dizem ainda mais.
A expressão séria de Geraldinho durante aquela declaração foi interpretada por observadores como o retrato de uma situação delicada. Não se tratava apenas de uma fala protocolar do governador. Era uma sinalização clara de que a composição política pode estar sendo redesenhada.
Nos bastidores, já se fala na possibilidade de que o vice-governador seja deslocado para uma posição de suplente do senador Jaques Wagner. Caso isso se confirme, o gesto será interpretado como aquilo que a política costuma chamar de “acomodação elegante” — ou, em linguagem mais direta, um prêmio de consolação.
Esse episódio revela um fenômeno cada vez mais presente na política contemporânea: a política dos descartáveis.
Partidos deixam de ser estratégicos, lideranças são substituídas e alianças se reorganizam conforme as conveniências eleitorais do momento. Ideologia, fidelidade ou história comum muitas vezes têm peso menor do que fatores como tempo de televisão, capilaridade regional, força eleitoral e cálculo matemático das urnas.
Se ontem o MDB era peça importante no quebra-cabeça político, hoje o PSD parece ocupar esse lugar com mais utilidade estratégica.
A política brasileira, como já observaram alguns sociólogos, tornou-se profundamente líquida. A metáfora de Zygmunt Bauman encaixa-se perfeitamente nesse cenário. Nada é sólido por muito tempo. Alianças se dissolvem, acordos se reformulam e compromissos são redesenhados conforme a necessidade do poder.
Tudo flui.
O curioso é que o MDB não é um partido qualquer na história política nacional. Nasceu como símbolo da resistência democrática durante o regime militar e ao longo das décadas tornou-se um dos partidos mais resilientes do país. Sobreviveu a mudanças de regime, reorganizações partidárias e incontáveis rearranjos de poder.
O MDB sempre teve uma habilidade notável: adaptar-se às circunstâncias.
Mas mesmo partidos experientes podem ser surpreendidos quando o pragmatismo político se impõe com força total.
A verdade é que o poder tem suas próprias leis — e elas raramente são românticas.
A principal delas talvez seja esta: ninguém é indispensável.
Aliados são valorizados enquanto contribuem para a construção do projeto de poder. Quando deixam de ser essenciais, o sistema encontra naturalmente outro lugar para encaixá-los — ou simplesmente segue adiante.
É duro, mas é assim que funciona.
Porque, no fundo, a política não é movida por sentimentalismo. Ela é movida por interesses, estratégias e sobrevivência eleitoral.
E nesse jogo silencioso, muitas vezes implacável, a lição é sempre a mesma: quem não percebe a mudança do tabuleiro corre o risco de descobrir tarde demais que o jogo já mudou enquanto ainda acreditava estar jogando a mesma partida.
Na política — como na vida — a fila anda.




