
(Padre Carlos)
“Não basta conhecer as leis, é preciso ter sensibilidade.” A frase do presidente da Câmara Municipal de Vitória da Conquista, Ivan Cordeiro, proferida durante o lançamento da Rede de Enfrentamento à Violência Contra Mulheres e Meninas, é muito mais que um comentário político: é uma convocação moral, ética e humana. Porque legislar é uma responsabilidade técnica, mas proteger vidas é um imperativo de humanidade.
Desde 2017, mais de 17 mil mulheres buscaram socorro em Vitória da Conquista. A estatística, por si só, é um grito de socorro coletivo. Somente hoje, mais de 200 mulheres estão sob acompanhamento do Centro Albertina Vasconcelos, e isso nos diz que a violência contra mulheres não é um tema para discursos ocasionais, mas uma emergência cotidiana, estrutural e epidêmica. E como toda epidemia, exige mais que protocolos: exige uma rede viva, integrada e sensível.
A criação do Comitê Permanente Interinstitucional, formalizada com o decreto da prefeita Sheila Lemos, é um divisor de águas. Ao reunir Executivo, Legislativo, Judiciário, forças policiais, OAB, Defensoria Pública, conselhos e entidades civis, o município lança um pacto pela vida das mulheres. E esse pacto só terá força se for alimentado pela empatia, pela escuta ativa e pela coragem de agir diante da dor.
É louvável ver Conquista liderando essa agenda. A prefeita não apenas sancionou uma medida: ela anunciou uma visão de futuro. A Casa da Mulher Brasileira e a Guardiã Maria da Penha, dentro da Guarda Municipal, são sinais concretos de que não basta responder à violência — é preciso preveni-la, enfrentá-la, romper com o silêncio e proteger quem ainda sofre escondida atrás das cortinas da vergonha e do medo.
Viviane Ferreira, secretária de Políticas para as Mulheres, foi cirúrgica ao definir o fenômeno como “uma epidemia que ceifa vidas e causa sofrimento”. A Ronda Maria da Penha, sob o comando da Tenente Velania, e a Guarda Municipal, sob a orientação do Capitão Lemos, reconhecem que a subnotificação é a grande muralha que ainda precisa ser derrubada. E para isso, a palavra-chave é confiança. Confiança na rede. Confiança no acolhimento. Confiança na ação.
Mas aqui cabe uma advertência: leis frias e distantes não salvam vidas. Relatórios não acolhem mulheres em desespero. Códigos penais não enxugam lágrimas. Só a sensibilidade faz isso. É esse o ponto de inflexão do discurso do presidente Ivan Cordeiro. Sensibilidade não é favor, é obrigação pública.
Ter uma bancada feminina inédita na Câmara é também uma revolução simbólica e prática. Mulheres no parlamento trazem à luz realidades que muitas vezes são invisíveis aos olhos da política tradicional. Elas não apenas legislam: elas representam a dor de muitas, a esperança de tantas e a luta de todas.
Vitória da Conquista dá agora um passo que vai muito além da institucionalidade. Dá um passo em direção à dignidade. E que esse passo se transforme em caminhada, em jornada, em política de Estado — com orçamento, com metas, com fiscalização e, sobretudo, com compromisso.
Porque no final, não é sobre leis. É sobre vidas.




