Política e Resenha

ARTIGO – A Renúncia Encenada: Quando o Político Foge da Justiça, Não do Privilégio

(Padre Carlos)

Vivemos um tempo em que os políticos aprenderam a vestir a máscara da virtude enquanto agem com frieza cirúrgica para garantir a própria sobrevivência. A mais nova encenação do Congresso Nacional chama-se PEC do fim do foro privilegiado — e, à primeira vista, parece um gesto de coragem e republicanismo. Mas olhe mais de perto. O que parece altruísmo, na verdade, é cálculo. E dos mais frios.

O foro privilegiado no Brasil, popularmente entendido como um escudo de proteção, virou o contrário: uma rota direta para o julgamento implacável do Supremo Tribunal Federal. Quem é acusado criminalmente e cai direto nas mãos do STF sabe que os tempos mudaram. Não há mais longas gavetas nem sonolência processual. O Supremo de hoje julga — e julga rápido. Sem direito a recursos em instâncias inferiores. Sem os caminhos tortuosos e protelatórios da justiça comum.

E é justamente isso que os políticos querem evitar. O fim do foro não é um gesto de desprendimento. É uma fuga estratégica. Um salto para fora do campo de visão da Corte que, nos últimos tempos, deixou de ser o “cemitério dos processos” e passou a ser tribunal de sentenças firmes.

A grande jogada dos políticos é trocar o risco de uma condenação rápida por uma longa travessia de recursos na justiça comum. Ali, eles encontram o verdadeiro paraíso da impunidade: decisões que se arrastam por décadas, recursos que viram labirintos, e uma estrutura que favorece quem tem bons advogados e tempo para esperar a poeira baixar.

Não se trata, portanto, de abrir mão de um privilégio. Trata-se de trocar uma armadilha por uma fortaleza. E o povo, sempre sedento por justiça, é usado como massa de manobra. Aplaude o fim de um falso privilégio enquanto os reais permanecem de pé: salários absurdos, verbas de gabinete, auxílio-moradia, aposentadoria especial. Tudo isso intacto, sob o manto do silêncio e da conveniência.

O mais preocupante é que esse movimento ocorre sob o aplauso de uma sociedade cansada, desinformada e manipulada. A impunidade na política brasileira não morre com o fim do foro. Ao contrário: ela pode renascer com mais força no seio da justiça comum, onde o tempo e os labirintos processuais são os melhores aliados dos poderosos.

Enquanto o país se ilude com a queda de um privilégio simbólico, perde de vista a essência da corrupção institucional: a capacidade dos poderosos de se reinventarem para continuar acima da lei. O STF, que antes era o escudo, virou o juiz final. E agora, ninguém mais quer jogar com esse árbitro.

Que fique claro: a renúncia ao foro é uma jogada de sobrevivência, não de coragem. É esperteza, não ética. E, como tantas vezes em nossa história, a esperteza dos de cima será a desilusão dos de baixo.