Política e Resenha

ARTIGO – A Roseira Democrática e o Cuidado Permanente (Padre Carlos)

 

 

 

A ministra Cármen Lúcia, em uma de suas mais inspiradas falas, ofereceu à sociedade brasileira uma metáfora que transcende o ambiente jurídico e chega ao coração de quem compreende a fragilidade da democracia. Recordando a persistência de sua mãe em cultivar roseiras no tórrido Norte de Minas, ela comparou a luta diária pelo florescimento de uma rosa à defesa incansável da democracia no Brasil.

A roseira, naquela terra árida, não nascia por acaso. Exigia esforço, paciência e dedicação. Era preciso acordar cedo, enfrentar o sol escaldante e, acima de tudo, acreditar que a beleza da flor justificava o sacrifício. Assim também é a democracia: não floresce sozinha, não se mantém sem vigilância, não resiste sem o cuidado diário dos que a cultivam.

A metáfora ganha ainda mais força quando lembramos que a democracia não é um bem acabado, mas uma construção frágil. Como advertiu a ministra, a erva daninha cresce sem cuidado; já a roseira precisa de zelo permanente. A democracia, se negligenciada, é facilmente sufocada por discursos autoritários, pela intolerância, pela indiferença social.

No atual cenário político, em que forças antidemocráticas testam os limites das instituições e tentam desacreditar o Supremo Tribunal Federal, a fala de Cármen Lúcia é um alerta: a roseira democrática precisa ser regada todos os dias. Não basta defendê-la em discursos solenes; é necessário garantir o Estado de Direito, respeitar a Constituição e assegurar que a justiça prevaleça sobre o arbítrio.

O Supremo, quando se coloca como guardião da democracia, assume justamente esse papel de jardineiro: cuidar da planta frágil que é a liberdade, regar as raízes do Estado Democrático de Direito e impedir que as ervas daninhas do autoritarismo tomem conta do canteiro Brasil.

A democracia é, portanto, uma roseira: exige trabalho diário, resiliência e coragem para enfrentar o calor tórrido das crises políticas. Se abandonada, seca. Se cuidada, floresce. E como disse a ministra, não é da confusão que devemos gostar, mas da rosa democrática que insiste em nascer.