
(Padre Carlos)
Há momentos na vida institucional em que as alianças do passado se desmancham no ar, como se o tempo revelasse que afinidades antigas eram, na verdade, pontes provisórias. É o que ocorre agora na Universidade Federal da Bahia (UFBA), palco de uma disputa que ultrapassa a simples sucessão administrativa: a pré-candidatura de João Carlos Salles e Penildon Silva Filho à reitoria de 2026 marca um divisor de águas no pensamento e no destino político da universidade.
Durante quase uma década, Salles e Penildon caminharam lado a lado. O primeiro, filósofo e ex-reitor entre 2014 e 2022, representava a sobriedade acadêmica e a defesa intransigente da autonomia universitária. O segundo, professor e atual vice-reitor, era um de seus mais próximos colaboradores — ocupou o cargo de pró-reitor de graduação e tornou-se, depois, o braço direito do reitor Paulo Miguez. Juntos, construíram um projeto de universidade plural, democrática e humanista.
Mas o tempo político das instituições é implacável. As estruturas que um dia se complementaram hoje se enfrentam em campos opostos. De um lado, João Carlos Salles, que tenta retornar ao comando com o slogan “Somos UFBA”, evocando a resistência à ingerência externa e o combate ao obscurantismo. De outro, Penildon Silva Filho, que apresenta uma proposta de “diálogo, ciência e projeto de Nação”, prometendo abrir a universidade a novos debates e vozes. Ambos invocam os mesmos princípios — autonomia, democracia, inclusão — mas a leitura desses conceitos revela sutis e profundas divergências.
Salles, com seu tom filosófico, quer reafirmar a universidade como bastião da liberdade intelectual, um espaço que se recusa a dobrar-se às “falsas promessas de progresso”. É uma candidatura que apela à memória — à UFBA que resistiu ao projeto Future-se e às tentativas de intervenção federal. Já Penildon, mais pragmático e afeito à linguagem da gestão moderna, fala em construir “um projeto coletivo de Nação”, inserindo a UFBA no contexto de um Brasil que busca reconstruir sua política científica e educacional.
O que separa os dois, portanto, não é a ideologia, mas a narrativa do poder. Salles encarna o símbolo da resistência, o guardião do legado. Penildon representa a renovação, a continuidade com mudança. Em política — e a universidade é também um campo político — essa diferença basta para acender disputas acirradas.
Há ainda o elemento humano, inevitável em qualquer ruptura: a busca pelo protagonismo. O posto de reitor é o ápice da carreira acadêmica, e ambos têm credenciais para ocupá-lo. Mas o que para alguns é continuidade, para outros soa como repetição. O eleitorado universitário — professores, técnicos e estudantes — verá, nos próximos meses, dois rostos conhecidos apresentando caminhos que se cruzam e se afastam ao mesmo tempo.
A UFBA vive, assim, um momento de reflexão sobre o próprio destino. A eleição de 2026 não será apenas uma escolha de nomes, mas de projetos. Será preciso decidir entre a universidade que resiste e a universidade que dialoga — entre o passado de firmeza e o futuro de abertura. Talvez o desafio maior seja compreender que nenhuma das duas visões está errada. Elas expressam, na verdade, a tensão vital que sustenta qualquer instituição viva: a necessidade de preservar sua identidade sem perder a capacidade de se reinventar.
A disputa entre João Carlos Salles e Penildon Silva Filho é, em essência, o retrato de uma universidade madura, onde o debate se faz entre iguais, e não entre opostos inconciliáveis. O que está em jogo é a alma da UFBA — seu modo de pensar, ensinar e existir. E isso, convenhamos, é o que faz da política universitária um espelho das grandes disputas do próprio país.




