Política e Resenha

ARTIGO – A Vergonha da Blindagem Parlamentar

 

 

 

(Padre Carlos)

A aprovação da chamada PEC da Blindagem, nesta terça-feira, dia 16, na Câmara dos Deputados, é um retrato nítido da degradação política que atravessa o Congresso Nacional. Por 353 votos a favor contra 134 no primeiro turno e 344 a 133 no segundo, o texto que amplia a proteção judicial de parlamentares foi aprovado com larga folga. A proposta impõe que só com autorização do Congresso deputados e senadores possam ser processados criminalmente.

Eis a pergunta incômoda: se houvesse real interesse da esquerda e do governo, essa PEC passaria?

A resposta, embora amarga, parece clara: não.


A omissão da esquerda

Entre os partidos, a direita não escondeu a face: PL, Republicanos e PRD foram unânimes em apoiar a proposta. Já a esquerda preferiu o silêncio cúmplice. O PT, partido do presidente Lula, registrou 12 votos favoráveis à PEC, além de várias ausências que contribuíram, pela omissão, para o avanço da medida. PSOL e PCdoB, por sua vez, foram coerentes e votaram integralmente contra.

O que chama atenção é que figuras tradicionais da esquerda, como Airton Faleiro, Alfredinho, Dilvanda Faro, Francisco Costa, Flávio Nogueira, Florentino Neto, Jilmar Tatto, Kiko Celeguim, Leonardo Monteiro e Odair Cunha, se posicionaram a favor da blindagem. O gesto não é um detalhe técnico — é uma ruptura simbólica.


A contradição exposta

O PT, historicamente, sempre se apresentou como defensor da justiça igualitária, da ética e da responsabilização. Mas o voto de parte da sua bancada em favor de uma PEC que dificulta investigações e cria privilégios inaceitáveis expõe uma contradição gritante.

A incoerência não passa despercebida. A militância reage com indignação, movimentos sociais criticam duramente o partido e o eleitorado progressista se sente traído. É impossível sustentar um discurso contra a corrupção em palanques e, no plenário, apoiar mecanismos que protegem políticos de responderem por seus atos na justiça.


Consequências políticas

Essa aprovação não é apenas um episódio parlamentar — ela tem peso histórico. O PT corre o risco de ser visto como um partido que se distanciou das suas origens, cedendo a acordos institucionais que preservam privilégios em vez de enfrentar os problemas estruturais do país.

A esquerda, quando se omite ou se divide em temas como este, abre espaço para que a direita assuma o protagonismo da narrativa — ainda que em defesa de uma medida vergonhosa. Quem vota contra a justiça se esconde atrás de prerrogativas e escancara que tem mais medo da lei do que confiança na própria inocência.


O recado ao povo

A PEC da Blindagem precisa ser barrada no Senado. Mas, mais do que isso, o povo brasileiro merece respostas:

  • Por que parlamentares da esquerda votaram pela blindagem?

  • O que justifica criar obstáculos para investigações?

  • Quem, afinal, essa medida protege?

O país está atento. O eleitor não esquece. E se a esquerda, especialmente o PT, não reencontrar a coerência de sua trajetória, pagará um preço alto nas urnas.

Blindar políticos não é fortalecer a democracia. Pelo contrário: é enfraquecer a justiça e trair a confiança popular.