(Padre Carlos)
Em Vitória da Conquista, uma notícia estarrecedora vem manchando não apenas a advocacia, mas também a confiança do cidadão nas instituições que deveriam resguardar a justiça. Um advogado da cidade é investigado pela Polícia Civil por ter falsificado documentos e apresentado nada menos que 84 sentenças de usucapião, todas ligadas a sobrenomes de parentes, com o objetivo de se apropriar de terrenos no Loteamento Primavera.
As investigações revelam um esquema audacioso. Após obter êxito em apenas uma ação legítima de usucapião, o advogado teria passado a falsificar documentos, tentando multiplicar seu patrimônio de forma fraudulenta. A artimanha só foi desvendada graças à atenção da equipe técnica da prefeitura, que identificou irregularidades em uma das sentenças. O detalhe: o QR Code não correspondia ao documento registrado na Vara competente.
A Polícia Civil agiu rápido. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos em sua casa e escritório. Foram apreendidos documentos, computadores, celulares e HDs, todos agora sob perícia. A confissão informal do próprio investigado apenas reforça o escândalo.
Esse caso expõe duas feridas abertas em nossa sociedade. A primeira é a corrupção travestida de erudição. Aquele que deveria zelar pela lei, usar sua formação para defender direitos e buscar justiça, utilizou o conhecimento jurídico como arma para enganar. A segunda é a fragilidade dos sistemas de fiscalização e controle, que só conseguem barrar o ilícito depois de iniciado o prejuízo.
A Ordem dos Advogados do Brasil acompanha o caso e já abriu investigação. Se comprovadas as acusações, o advogado poderá ser excluído dos quadros da instituição. Além disso, a Justiça determinou o bloqueio de seus bens para assegurar a reparação a terceiros prejudicados.
O episódio do Loteamento Primavera nos ensina que não basta termos leis; precisamos de vigilância constante. A integridade de uma cidade depende não apenas das autoridades, mas da participação cidadã em denunciar irregularidades e exigir transparência. Quando um advogado — alguém que carrega a responsabilidade de defender direitos — usa a lei para fraudar, a traição não é apenas contra vítimas específicas, mas contra toda a confiança que sustenta o pacto social.
Vitória da Conquista precisa transformar essa vergonha em lição. A justiça não pode ser dobrada ao sabor da esperteza, nem negociada em escritórios que deveriam honrar a lei. A sociedade espera que este caso seja levado até o fim, com punição exemplar, para que se deixe claro: em nosso município, a lei não tem sobrenome.





