
(Padre Carlos)
O Brasil vive tempos em que a democracia se encontra sob prova constante. O julgamento de Jair Bolsonaro, em meio a intensas disputas políticas e ideológicas, abre espaço para reflexões que ultrapassam o presente imediato e alcançam o sentido histórico de nossa caminhada republicana. Nesse contexto, o pronunciamento do ex-presidente José Sarney assume um peso que não pode ser ignorado.
Sarney foi o primeiro presidente civil após a ditadura militar, conduzindo a transição democrática nos anos 1980. Sua voz, portanto, não é apenas a de um político veterano, mas de uma memória viva de um Brasil que lutou para recuperar a liberdade e o direito ao voto. Quando ele se posiciona em defesa da Justiça, na figura do ministro Alexandre de Moraes, está, em verdade, defendendo o próprio alicerce do processo democrático.
A frase herdada de seu avô — “Nunca corro atrás de um doido, porque você não sabe para onde ele vai” — é carregada de sabedoria popular e de alerta político. Ela nos lembra que não se deve seguir líderes ou discursos que conduzem à irracionalidade, à violência ou ao desprezo pelas instituições. O papel do cidadão, e sobretudo da Justiça, é manter a serenidade, a firmeza e a fidelidade à Constituição, ainda que diante de ataques e incompreensões.
O gesto de Sarney tem ainda outra dimensão simbólica: mostra que a democracia não se defende apenas no presente, mas também pelo peso da memória histórica. Ao se pronunciar, ele reafirma que os 40 anos de regime democrático que o Brasil conquistou não são um dado natural, mas uma construção coletiva que precisa ser preservada e multiplicada.
Quando um ex-presidente, que simboliza a travessia da ditadura à democracia, ergue sua voz em defesa das instituições, ele sinaliza que a disputa política não pode se sobrepor ao pacto civilizatório que sustenta a cidadania e a liberdade. É como se a própria história viesse nos recordar que nenhum projeto de poder pode se colocar acima da República.
O pronunciamento de José Sarney, portanto, não é apenas uma fala isolada. É um chamado à responsabilidade de cada brasileiro: defender a Justiça é defender a democracia, e defender a democracia é defender o Brasil.




