Política e Resenha

ARTIGO — “Ainda Ontem, Eu Tinha Vinte Anos” — (Padre Carlos)

 

 

 

Há músicas que não envelhecem. Elas apenas esperam o momento exato de nos atravessar como uma lâmina silenciosa. E talvez nenhuma tenha a crueldade doce da canção de Charles Aznavour quando ele sussurra ao mundo: “Ainda ontem, eu tinha vinte anos.”

Não é apenas uma música. É um espelho.

E certos espelhos são impiedosos.

Durante muito tempo, imaginei que o tempo fosse um aliado dócil, uma espécie de rio domesticado correndo ao lado dos nossos desejos. A juventude tem essa arrogância inocente: acredita que haverá sempre outra estação, outro trem, outro amor, outra oportunidade para dizer aquilo que o medo nos fez calar.

Mas o tempo… ah, o tempo não faz acordos.

Ele passa.

Passa enquanto fazemos planos grandiosos. Passa enquanto adiamos abraços. Passa enquanto acreditamos que certas pessoas continuarão eternamente sentadas na varanda da vida esperando nossa maturidade chegar.

E então, um dia, percebemos.

Percebemos que os melhores anos não estavam à nossa frente. Eles estavam acontecendo. Naquele instante banal que desprezamos. Na conversa interrompida. Na ligação não feita. No amor sentido pela metade.

Como disse Aznavour: “Fiz tantos projetos que ficaram no ar. Alimentei tantas esperanças que bateram asas.”

Quem chega aos sessenta sem entender isso talvez nunca tenha vivido de verdade.

Porque envelhecer não é ver rugas surgindo no espelho. É descobrir quantas versões de nós morreram silenciosamente no caminho.

Mas há algo ainda mais doloroso que a passagem do tempo: encontrar alguém na hora errada.

Talvez seja essa a tragédia secreta dos grandes afetos. Não a ausência do amor, mas o desencontro das maturidades. Quantas vezes a vida nos entrega alguém precioso exatamente quando ainda somos emocionalmente frágeis demais para cuidar daquilo? Quantas pessoas perdemos não por falta de sentimento, mas por insuficiência de alma naquele momento?

E como culpar o tempo?

Como acusá-lo se fomos nós que chegamos imaturos diante daquilo que poderia ter sido eterno?

Há amores que nascem condenados pelas circunstâncias, mas não pela intensidade. Permanecem vivos como brasas escondidas sob cinzas frias. Não desaparecem. Apenas aprendem a doer em silêncio.

E talvez amar seja exatamente isso: aceitar que algumas pessoas chegam para nos ensinar que o coração possui calendários diferentes dos relógios.

O tempo cronológico segue impiedoso. O emocional, não.

Ele para.

Congela.

Fica preso numa rua, numa música, num perfume, numa madrugada específica.

Às vezes, basta ouvir uma canção francesa antiga para que décadas desabem sobre nós como folhas secas carregadas pelo vento de outono.

E então nos perguntamos, assustados: onde foram parar os nossos vinte anos?

A verdade é que eles nunca desaparecem completamente.

Moram escondidos dentro dos homens cansados.

Estão nos olhos marejados de quem observa jovens atravessando avenidas acreditando serem eternos. Estão no silêncio melancólico de quem entende tarde demais que a vida não era o amanhã grandioso, mas o agora aparentemente comum.

Hoje sei que não tenho mais vinte anos.

O espelho já não permite fantasias tão generosas.

Mas também sei de outra coisa: não desperdicei completamente a vida. Entrei em vagões perigosos. Arrisquei afetos. Vivi batalhas. Caí. Recomecei. Amei pessoas que talvez nem imaginassem o tamanho do espaço que ocupavam dentro de mim.

E ainda amo.

Talvez isso seja a última rebeldia possível contra o envelhecimento: continuar permitindo que o coração transborde mesmo quando o mundo exige cinismo dos mais velhos.

Vivemos uma época estranha. As pessoas desaprenderam a sentir profundamente. Tudo precisa ser rápido, superficial, descartável. Relações viraram contratos emocionais de curto prazo. Afetos são consumidos como produtos de prateleira.

Mas o amor verdadeiro nunca foi moderno.

Ele continua antigo, intenso, paciente e absurdamente vulnerável.

Por isso compreendo Isabel Allende quando diz: “não posso deixar de escrever… nem de amar.”

Escrever e amar talvez sejam atos irmãos.

Ambos exigem coragem para desnudar a alma.

Ambos nos expõem ao ridículo, à rejeição e à saudade.

Ambos são tentativas desesperadas de impedir que o tempo leve tudo embora.

E talvez seja por isso que ainda escrevo textos que fogem da política, dos embates ideológicos e das guerras cotidianas das redes sociais. Porque existe um velho coração sobrevivendo aqui dentro. Um coração que se recusa a aceitar que amadurecer signifique parar de sentir.

No fundo, todos nós temos medo da mesma coisa.

Não da morte.

Mas da possibilidade de descobrir, tarde demais, que passamos pela vida sem realmente viver.

Aznavour tinha razão.

Ainda ontem, tínhamos vinte anos.

E o mais assustador é perceber que amanhã alguém dirá a mesma coisa sobre o hoje que estamos desperdiçando agora.