Política e Resenha

ARTIGO – As Bandeiras São Coloridas, Mas as Raízes São Quilombolas e Indígenas

 

 

(Padre Carlos)

Junho acende fogueiras. Julho mantém as brasas. E entre balões, quadrilhas e o cheiro quente do milho cozido no ar, o Brasil se entrega ao seu ciclo mais afetivo: as festas de São João e São Pedro. É o tempo em que as cidades se vestem de chita, a música toma as praças e o povo celebra com alegria visceral. Mas, por trás das bandeirinhas coloridas, há raízes profundas e, muitas vezes, silenciadas. As verdadeiras colunas dessas festas não se erguem nos salões do folclore branco, mas nos terreiros quilombolas e nas aldeias indígenas.

É hora de rasgar o véu da folclorização e fazer justiça histórica. Sim, é preciso afirmar sem hesitação: a festa é junina, mas a alma é afroindígena. O milho que enche as mesas não veio com o colonizador. A canjica que aquece o peito nas noites frias não nasceu em convento. O cuscuz, a pamonha, o mungunzá — todos esses alimentos são fruto de um Brasil que resistiu com panela na mão e sabedoria na alma.

Muito antes de qualquer padre europeu batizar o calendário com santos católicos, o milho já era sagrado nas mãos dos povos originários. Os Tupinambás, os Pataxós, os Tupi-Guaranis e tantos outros já conheciam seus ciclos, respeitavam seu tempo e o tratavam como divindade. Era comida, era símbolo, era oferenda.

Com a violência da colonização e a brutalidade da escravidão, os povos africanos trouxeram outras camadas de sabedoria. O milho virou pamonha, virou cuscuz, virou resistência. A folha de bananeira virou forma. O leite de coco, tecnologia ancestral. A rapadura, produto do suor forçado. E juntos, negros e indígenas, moldaram um saber que não se ensina nas escolas: o da cozinha como território, como altar, como trincheira.

Os quitutes juninos são documentos vivos. São bibliotecas sem letras, mas com cheiro, textura e gosto. São a memória dos que viveram sob silêncio forçado, mas deixaram sua herança gravada no paladar nacional. Quando comemos um pé de moleque, adoçado com rapadura e amendoim — dois produtos da diáspora —, não saboreamos apenas um doce: mastigamos um capítulo da resistência.

Mas a história oficial, fiel ao seu hábito elitista, tentou apagar essa origem. Pintou a festa junina com cores “caipiras”, limpou os traços negros, embranqueceu os rostos e vestiu tudo com um verniz europeu. E assim, o Brasil, que tanto se gaba de sua diversidade cultural, escondeu suas verdadeiras fundações debaixo do tapete do folclore domesticado.

Por isso, celebrar São João e São Pedro com consciência é um ato de reparação. É trazer à tona os nomes, as mãos e os corpos que sustentaram essas festas quando elas ainda eram apenas sobrevivência. É tirar a festa da vitrine e colocá-la de volta no chão de barro, onde ela nasceu. É lembrar que por trás da sanfona há um tambor, por trás da quadrilha há um toré, por trás da alegria há dor — e superação.

As bandeiras continuam coloridas. Mas agora sabemos: cada cor carrega uma raiz. E essas raízes são negras, são indígenas, são as raízes de um Brasil que, mesmo esmagado, nunca deixou de florescer.