Política e Resenha

ARTIGO – As Curvas da História, a Tecnologia e o Dever Progressista

 

 

Padre Carlos

 

Uma das grandes verdades que só os cabelos brancos nos permitem afirmar com serenidade é esta: a história segue o seu rumo. Não em linha reta, mas em curvas. Avança e recua, tropeça e se reorganiza, mas caminha, teimosamente, em direção à eficiência econômica e à justiça social. Essa marcha não é fruto da boa vontade dos poderosos, mas da pressão acumulada dos fatos, das lutas sociais e das transformações técnicas que reconfiguram o mundo.

Ao longo do tempo, o papel dos políticos conservadores — no Brasil e no mundo — tem sido o de dificultar essa caminhada histórica. Foi assim quando atrasaram as conquistas abolicionistas, resistiram à República, combateram os direitos das mulheres, negaram as leis trabalhistas e tentaram conter cada avanço civilizatório que hoje consideramos óbvio. A lógica é sempre a mesma: preservar privilégios, mesmo quando a realidade já mudou.

Nosso papel, como articulistas progressistas, é justamente o oposto: apressar a marcha da história na direção da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade. Este lema, que atravessou séculos e revoluções, continua sendo o eixo central da democracia moderna e do que entendemos por justiça. Como canta o menestrel conquistense Elomar Figueira, ao falar das curvas do rio, também a história faz as suas curvas — independentemente da vontade dos políticos ou das ideologias que tentam congelá-la.

Nos últimos anos, uma dessas grandes curvas foi imposta pelo avanço técnico. O surgimento do computador, da internet, da inteligência artificial, da automação e da robótica não foi apenas um progresso tecnológico; foi uma ruptura histórica. Mudou a economia, o trabalho, a comunicação, a política e até a forma como pensamos o mundo. Esses avanços são conquistas humanas, mas produzem deslocamentos profundos, eliminam funções, criam outras e exigem novas competências.

O problema é que muitos ainda não perceberam essa curva. Continuam presos a uma visão de economia baseada na engrenagem industrial clássica, enquanto o mundo já opera sob a lógica dos dados, dos algoritmos, das plataformas digitais e das comunicações instantâneas. Querem um avanço em linha reta quando a história já virou a esquina. Essa recusa em enxergar a realidade gera políticas ineficientes, discursos vazios e frustrações sociais crescentes.

A justiça social e o bem-estar coletivo só podem ser construídos sobre uma economia eficiente. Durante décadas, a luta por justiça se dava principalmente na disputa entre salário e lucro. Hoje, a tragédia é outra: milhões estão fora da própria economia formal. A curva da história eliminou empregos tradicionais e passou a exigir formação técnica, educacional e cognitiva que grande parte da população não teve acesso. Criou-se uma apartação social entre incluídos e excluídos, talvez mais cruel do que as anteriores.

O grande desafio do campo progressista é desfazer essa apartação. Não podemos aceitar que a revolução tecnológica beneficie poucos e abandone muitos. A curva da história não pode esquecer os analfabetos, os que não concluíram o ensino médio com qualidade, os que foram expulsos da escola pela pobreza ou pela desigualdade estrutural. Defender universidade para todos é essencial, mas sem esquecer quem ficou pelo caminho. Erradicar o analfabetismo, garantir educação básica de qualidade e reformar a universidade para que forme profissionais preparados para o mundo dinâmico do conhecimento são tarefas urgentes.

Nós, progressistas, precisamos construir um pacto social e econômico que garanta sustentabilidade para as próximas gerações sem penalizar quem já sofre. Isso implica enfrentar privilégios históricos, dinamizar a economia, estimular a inovação e rejeitar reformas que retiram direitos de quem não tem mais nada a oferecer ao Estado além da própria sobrevivência. Ser contra reformas injustas exige mais do que discurso: exige a construção de propostas humanas, viáveis e inclusivas.

Não podemos cair na tentação do populismo, erro em que parte da direita afundou por oportunismo eleitoral ou incapacidade de compreender as curvas da história. Também não podemos repetir os erros dos democratas-progressistas brasileiros que, em outros momentos, apoiaram rupturas institucionais e hoje colhem derrotas políticas. O maior erro desses pseudoprogressista ou liberal foi não perceber que o mundo mudou — e que a história não espera por quem se recusa a entendê-la.

Nosso discurso jamais poderá naturalizar a desigualdade, sob nenhum pretexto. Não existe limite aceitável para a injustiça social. Só garantiremos o mínimo de dignidade para todos se enfrentarmos a desigualdade em sua raiz. A chamada “Nova Esquerda”, quando abdica desse compromisso e passa a defender privilégios de uma parcela da burguesia, trai sua própria razão de existir.

A história continuará fazendo curvas. Com ou sem nossa permissão. Cabe a nós decidir se estaremos do lado de quem tenta freá-la ou de quem ajuda a conduzi-la, com coragem, lucidez e compromisso com a democracia, a justiça social, a tecnologia a serviço do humano e um futuro verdadeiramente inclusivo.