Política e Resenha

ARTIGO – As Entranhas da Lava Jato: quando a Justiça desce ao porão da política

 

 

Padre Carlos

Durante anos, a Operação Lava Jato foi apresentada como a epifania moral da República, uma cruzada purificadora contra a corrupção sistêmica. Vestiu-se de toga, empunhou a bandeira da ética e discursou como se falasse em nome da História. Mas toda narrativa messiânica guarda um perigo: quando não aceita limites, transforma a Justiça em instrumento e a lei em pretexto. As revelações de Tony Garcia rasgam, sem anestesia, o véu dessa farsa institucional.

O depoimento é estarrecedor não apenas pelo conteúdo, mas pela duração do esquema. Treze anos atuando como infiltrado da 13ª Vara Federal de Curitiba, alimentando a força-tarefa da Lava Jato com informações privilegiadas, numa engrenagem que misturava interesses políticos, seletividade penal e uma obsessão declarada contra o Partido dos Trabalhadores. Não se trata de um desvio pontual; trata-se de método. Método de perseguição, de manipulação processual, de construção artificial de culpados.

Quando Tony Garcia afirma que recebia dados diretamente de Eduardo Cunha — personagem central no impeachment de Dilma Rousseff — e os repassava aos procuradores Januário Paludo e Carlos Fernando dos Santos Lima, o que se revela não é apenas promiscuidade entre política e Justiça. Revela-se algo ainda mais grave: a existência de um submundo institucional onde a legalidade era negociável e o devido processo legal, um obstáculo a ser contornado.

A Lava Jato, que se dizia técnica e apartidária, operava como um projeto de poder. As condenações não eram consequência natural da investigação, mas objetivos previamente definidos. Primeiro escolhia-se o alvo; depois, fabricava-se o caminho jurídico para alcançá-lo. A presunção de inocência foi substituída pela presunção de culpa, desde que o réu estivesse no campo progressista.

É impossível compreender a crise da democracia brasileira sem passar por esse porão da República. A criminalização seletiva da política abriu caminho para o autoritarismo, desorganizou o sistema partidário e corroeu a confiança da sociedade nas instituições. O lawfare — uso do aparato jurídico como arma política — deixou de ser conceito acadêmico para se tornar prática cotidiana.

As revelações de Tony Garcia confirmam o que muitos denunciaram e poucos quiseram ouvir: houve perseguição política, houve conluio entre procuradores e atores interessados no golpe parlamentar de 2016, houve manipulação da opinião pública com vazamentos seletivos e espetacularização midiática. A Lava Jato não combateu a corrupção; escolheu inimigos.

Não se trata de absolver corruptos nem de negar os problemas estruturais do Estado brasileiro. Trata-se de algo mais profundo e perigoso: quando a Justiça abdica da imparcialidade, ela deixa de ser Justiça. E quando isso acontece, toda a sociedade perde, inclusive aqueles que aplaudiram de pé o espetáculo das prisões televisionadas.

O Brasil precisa revisitar esse passado recente com coragem e honestidade intelectual. Sem isso, continuaremos reféns de narrativas falsas, de heróis de barro e de uma democracia permanentemente ameaçada por aqueles que juraram defendê-la. As entranhas da Lava Jato exalam um cheiro que não é de moralidade, mas de abuso de poder. Ignorá-lo é condenar o país a repetir seus próprios erros.