Política e Resenha

ARTIGO – As Homenagens Que Precisam Ser Feitas em Vida

 

 

(Padre Carlos)

Existem trajetórias que se tornam tão grandiosas, tão luminosas na história política e humana, que esperar a morte para reconhecê-las vira quase um ato de ingratidão. Somos um país acostumado a chorar depois, quando já é tarde, quando “Inês é morta”. Mas há vidas que merecem aplausos agora, enquanto o coração ainda bate, enquanto os olhos ainda brilham, enquanto a memória ainda pulsa nos debates, nas lutas, nos sonhos de transformação social. E hoje eu escrevo para celebrar uma dessas vidas: Thâmar de Castro Dias.

Thâmar não é apenas um nome na militância — é uma história inteira de dedicação. Quando ingressou no Partido Comunista do Brasil, ainda em sua juventude, já carregava consigo aquela convicção rara de que a política deve ser ferramenta para melhorar o mundo. E fez disso seu norte. Há mais de quarenta anos serve ao mesmo ideal, com lealdade, coragem, inteligência e disciplina. Enquanto muitos mudaram de lado, romperam convicções, trocaram bandeiras por conveniências, Thâmar seguiu firme — comunista, patriota, democrática, defensora da soberania nacional e dos trabalhadores.

Foi ao lado de Haroldo Lima, uma das mais brilhantes lideranças populares, que sua biografia encontrou sua mais alta nota histórica. De 1983 até 2003, foram vinte anos intensos de trabalho no Gabinete do deputado e quase quarenta no Congresso Nacional, vivendo por dentro a construção da redemocratização brasileira. Ela não assistiu aos fatos — ela ajudou a escrevê-los. Foi chefe de gabinete, assessora de confiança, parceira de luta e guardiã da palavra escrita nos momentos decisivos. Nos anos em que o país debatia sua alma, quando se moldava a Constituição Cidadã, era Thâmar quem redigia discursos, organizava ideias, traduzia projetos, acolhia militantes e transformava reuniões madrugada adentro em capítulos da história do Brasil.

Ela sempre diz que trabalhar com Haroldo foi um privilégio que a vida lhe deu. Mas talvez seja hora de assumir o contrário: Haroldo Lima também foi privilegiado por ter ao lado uma mulher com tamanha inteligência política, sensibilidade humana e compromisso militante. As grandes personalidades raramente brilham sozinhas. O brilho de Haroldo carregava ali, nos bastidores da luta, a luz discreta e poderosa de Thâmar.

E aqui está o ponto essencial deste artigo: por que esperar a morte para dizer isso?
Por que o reconhecimento no Brasil chega sempre atrasado?
Por que a história insiste em homenagear somente quando já não há mais ouvido que escute?

Não. Hoje é dia de celebrar em vida.
Hoje é dia de aplaudir a companheira que nunca recuou, a militante que dedicou os melhores anos da juventude à democracia, a mulher que trabalhou quase quatro décadas no Congresso Nacional, servindo com dignidade ao povo brasileiro.

Honrar Thâmar agora é também uma forma de honrar tantas outras mulheres que sustentaram — com inteligência, competência e coragem — os alicerces invisíveis da política nacional. A história não se faz só nas tribunas — ela se faz nos bastidores, nos gabinetes, nas madrugadas de luta, no trabalho silencioso de quem acredita na construção coletiva do país.

Que hoje, enquanto segue firme na militância e na vida pública, Thâmar de Castro Dias receba o reconhecimento que merece.
Que ouça, em vida, aquilo que a história já sabe:
ela é parte fundamental da trajetória do PCdoB, da democracia brasileira e da luta popular neste país.

Celebrar alguém agora é um ato de amor, de justiça e de memória.
E é por isso que escrevo: que esta homenagem não espere o silêncio da morte — que seja dita enquanto ainda podemos olhar nos olhos e agradecer.