Política e Resenha

ARTIGO – As Primaveras da Juventude

 

(Padre Carlos)

A primavera sempre foi o tempo da esperança, da renovação e da vida que insiste em florescer. Fernando Pessoa, pela voz de Alberto Caeiro, nos deixou versos que atravessam gerações: “Quando vier a Primavera, se eu já estiver morto, as flores florirão da mesma maneira e as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.” É como se nos lembrasse de que, mesmo diante da finitude, a vida segue seu curso, convidando sempre ao recomeço.

Assim também foi com as juventudes que se levantaram em diferentes épocas da nossa história. Cada geração teve sua primavera, seu sonho, sua utopia. Na República Velha, jovens como Leôncio Basbaum, que ajudou a fundar o Partido Comunista do Brasil, acreditaram que era possível romper com os arcaísmos de um país dominado pelas oligarquias. Eram tempos de fervor e bandeiras agitadas pela esperança de uma nação mais justa.

Mais tarde, quando o fascismo ameaçava o mundo, a juventude brasileira não se calou. O poeta Carlos Drummond de Andrade e tantos jovens anônimos deram voz a um sentimento coletivo de coragem. Era a primavera da luta contra a barbárie, que uniu corações em defesa da liberdade.

Vieram depois os anos da campanha “O Petróleo é Nosso”, quando estudantes como Osvaldo Peralva e lideranças da UNE empunharam a bandeira do nacionalismo. Era um tempo em que o país se descobria dono de suas riquezas, e a juventude acreditava poder decidir o futuro.

Nos anos de chumbo da ditadura militar, outra primavera se ergueu. Jovens como José Dirceu, Vladimir Palmeira e José Serra marcaram o movimento estudantil, especialmente nas grandes passeatas de 1968 no Rio de Janeiro. Na Bahia, tínhamos Zé Sérgio e, no início da década de 1970, Zezéu Ribeiro, que enfrentou os piores anos de repressão. Foram nomes que simbolizaram a ousadia de sonhar em meio à escuridão, mantendo viva a chama da resistência democrática.

O primeiro presidente da UNE, após a reconstrução, eleito no Congresso de Salvador, em 1979, foi Rui César — embora meu candidato fosse Vadélio Silva.

Na década de 1980, quando o Brasil dava passos para a abertura política, novas flores despontaram, como Aldo Rebelo, liderança da UNE. Mas como em todo jardim, também nasceram ervas daninhas. Ainda assim, eram sinais de que o país começava a reencontrar sua primavera democrática.

Mais tarde, os caras-pintadas da década de 1990, com nomes como Lindbergh Farias, mostraram que a juventude ainda acreditava em sua capacidade de mudar o país, exigindo ética e transparência no poder.

Hoje, uma nova geração carrega suas bandeiras em defesa da democracia, da diversidade, do meio ambiente e da justiça social. Greta Thunberg, no cenário mundial, e jovens ativistas brasileiros como Txai Suruí levantam suas vozes como flores que desabrocham sobre o asfalto quente das crises políticas e climáticas.

A primavera nos recorda que cada geração traz em si a força de renascer, de reinventar a esperança, de transformar o mundo à sua volta. As flores de Caeiro continuam a brotar, verdes e fiéis ao ciclo da vida. Cabe a nós manter viva essa herança, acreditar que a primavera se renova em cada juventude que ousa sonhar — e que o tempo da utopia nunca se perde. Ele apenas se reinventa.