
(Padre Carlos)
A política baiana vive um momento de ebulição. De um lado, o governador Jerônimo Rodrigues acelera sua pré-campanha, multiplicando anúncios, inaugurando obras e prometendo novos investimentos. Do outro, ACM Neto, com sua habitual estratégia de comunicação e base consolidada, observa o tabuleiro com frieza e paciência, aguardando o momento certo de agir. O que se desenha é uma disputa de duas frentes distintas, mas que se entrelaçam: o cansaço de uma hegemonia de vinte anos e uma avalanche de promessas e cooptações que começam a gerar dúvidas até entre os aliados mais fiéis.
Os bastidores apontam um dado curioso: só em anúncios e ordens de serviço, o governo baiano já teria prometido mais de R$ 30 bilhões em obras e investimentos. São pontes, estradas, escolas, hospitais e programas sociais que se multiplicam em ritmo acelerado. A pergunta que paira entre prefeitos, vereadores e analistas é direta: o Estado tem todo esse dinheiro?
Mesmo que apenas 30% a 50% dessas promessas se tornem realidade, o impacto político seria gigantesco — especialmente nos pequenos e médios municípios, onde o peso da máquina pública e o simbolismo das entregas são decisivos. Contudo, há um risco evidente: o excesso de expectativa. Prefeitos que hoje se sentem contemplados podem, amanhã, se ver frustrados caso o prometido não se materialize. E a memória do eleitor interiorano, como sabemos, é seletiva, mas não ingênua.
ACM Neto, por sua vez, aposta na fadiga da hegemonia petista. São duas décadas de um mesmo grupo no poder. O cansaço institucional e o desejo de alternância começam a se manifestar, ainda que timidamente, nos discursos de lideranças regionais. Neto se apresenta como o gestor técnico, o homem das entregas, o político que fala em eficiência e resultados, em contraposição a uma máquina estatal que, apesar de expansiva, dá sinais de esgotamento fiscal.
Jerônimo, porém, tem algo que o diferencia: a dimensão humana. É visto como um homem de fino trato, de palavra fácil e coração aberto — um político que dialoga com a oposição sem hostilidade, e com a base, com lealdade. Esse traço pessoal o humaniza, mas também o fragiliza em um ambiente de disputa feroz, onde a imagem e o cronograma de obras pesam tanto quanto a simpatia do candidato.
O que está em jogo, portanto, não é apenas uma eleição estadual. É a disputa entre dois modelos de governar: o da continuidade com promessas de expansão e o da alternância com promessa de eficiência. Tudo isso em um contexto onde o cenário federal também terá peso decisivo. O grau de influência de Lula e o humor do eleitorado nacional poderão inclinar a balança, sobretudo no interior.
Se Jerônimo conseguir transformar uma parte consistente das promessas em obras concretas, poderá manter a hegemonia petista. Se, por outro lado, o discurso de “muitas promessas e pouca entrega” ganhar força, ACM Neto encontrará o terreno fértil que tanto esperava.
O certo é que a eleição que se aproxima será uma das mais duras da história recente da Bahia — e o fiel da balança estará nos pequenos municípios, onde promessas, compromissos e resultados se misturam com o desejo de mudança.




