(Padre Carlos)
Não dá mais para fingir que está tudo normal. Há momentos na história de uma nação em que o silêncio se torna cumplicidade e a omissão, covardia. O Brasil acaba de atravessar mais uma linha vermelha que ameaça a nossa soberania nacional, e não é a primeira vez que isso acontece. A diferença agora é que a afronta veio escancarada, pública e direta: a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil repercutiu, nesta quinta-feira (7), uma nova ameaça contra o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, e seus “aliados”.
O ataque veio pelas mãos — ou dedos — de Darren Beattie, subsecretário de Diplomacia Pública dos Estados Unidos, em uma publicação feita no X (antigo Twitter), onde acusa Moraes de ser o “principal arquiteto da censura e perseguição contra Bolsonaro e seus apoiadores”, afirmando que ele teria violado “flagrantemente os direitos humanos”, e que por isso teria sido alvo de sanções pela Lei Magnitsky, segundo o ex-presidente Donald Trump.
Independente de preferências políticas ou ideológicas, o que está em jogo aqui vai além da figura de Alexandre de Moraes ou de Jair Bolsonaro. O que está em jogo é o princípio sagrado da autonomia institucional brasileira, a independência entre os poderes e o respeito que qualquer nação civilizada deve ter por outra. Quando uma autoridade estrangeira se permite usar o nome de uma embaixada para lançar ameaças veladas — ou explícitas — contra um ministro do Supremo Tribunal Federal, temos que perguntar: onde está a reação do Governo Federal? Onde está o Itamaraty? Onde está o Congresso Nacional?
Até quando os Três Poderes da República seguirão inertes, tratando com normalidade um ato que em qualquer outro país seria considerado uma violação inaceitável da soberania? Até quando o silêncio vai ser a resposta oficial? Quando um agente estrangeiro utiliza canais diplomáticos ou redes sociais para influenciar, intimidar ou tentar coagir decisões internas de um Estado soberano, isso tem nome: ingerência estrangeira.
Essa ofensiva digital, carregada de símbolos e de geopolítica, não deve ser subestimada. Ela carrega o DNA de uma disputa muito maior: a luta pela hegemonia narrativa global. É preciso compreender que as redes sociais tornaram-se hoje campos de batalha geopolítica, onde diplomacia, desinformação e propaganda se misturam. Não é à toa que plataformas como o X estão cada vez mais servindo a interesses cruzados — muitas vezes contrários aos dos países onde operam.
O Brasil precisa reagir. E não falo aqui de reações emocionais, mas de posturas institucionais firmes. O Congresso precisa convocar o chanceler brasileiro para prestar esclarecimentos. O Itamaraty deve exigir explicações formais da Embaixada dos Estados Unidos. O Judiciário deve se pronunciar em defesa de sua autonomia. E o Presidente da República não pode mais permanecer no conforto da ambiguidade.
Chega de “fingir que não está acontecendo nada”. A soberania nacional não pode ser relativizada conforme o gosto político ou a conveniência diplomática. Nenhuma democracia sobrevive quando um de seus pilares — neste caso, o Judiciário — é atacado por agentes externos e ninguém reage.
A História nos cobra. O povo observa. E o mundo também.




