Política e Resenha

ARTIGO – Bolsa Família: quando deixar de receber ?

 

(Padre Carlos)

Num Brasil tantas vezes ferido pela desigualdade, a notícia de que mais de 900 mil famílias estão deixando o Bolsa Família por melhora de renda deveria ocupar as manchetes com orgulho e esperança. Afinal, o que se espera de um programa de transferência de renda não é a dependência eterna, mas a travessia. É quando o auxílio temporário cumpre sua missão — ser ponte e não prisão.

Segundo o ministro Wellington Dias, 958 mil famílias deixaram o programa apenas em julho, o que representa 3,5 milhões de pessoas. E o motivo não foi corte ou abandono: foi progresso. Foram empregos formais, pequenos negócios que floresceram, capacitação profissional e principalmente o esforço cotidiano de quem, mesmo com pouco, não desistiu de tentar mais.

Esse êxodo positivo se dá em boa parte graças à chamada “regra de proteção” — mecanismo que permite às famílias, mesmo após ultrapassarem a linha da pobreza, continuarem recebendo parte do benefício por até dois anos. Um colchão de transição que evita a recaída. E entre essas, 536 mil famílias chegaram ao limite dos 24 meses e agora podem caminhar sozinhas.

Contudo, essa boa notícia precisa ser sublinhada diante de um preconceito que ainda resiste: o de que o Bolsa Família acomoda, que seus beneficiários “não querem trabalhar”. É um mito cruel que ignora a realidade de quem acorda antes do sol para vender bolos, varrer ruas, cuidar de filhos e estudar à noite. Não é a renda que prende o povo à pobreza. É a ausência de oportunidades.

Desde o início do atual governo, mais de 8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza, sendo 3,5 milhões só neste ano. São brasileiros que agora deixam o programa por cima, não por decreto ou exclusão. Saem de cabeça erguida, com a dignidade de quem venceu.

É preciso reconhecer o papel do Estado — não como provedor paternalista, mas como indutor de liberdade. Quando o governo investe em qualificação profissional, apoio ao pequeno empreendedor e fortalecimento da educação, está mudando estruturas. Está plantando autonomia.

O Bolsa Família é, sim, um programa de combate à pobreza, mas pode ser também um trampolim para a classe média, como afirmou o próprio ministro. E isso está acontecendo. Lentamente, com muito chão pela frente, mas está.

Que não falte aos gestores sensibilidade e coragem para manter esse ciclo virtuoso. E que não falte ao povo brasileiro o olhar limpo para reconhecer que deixar de receber o Bolsa Família, neste caso, não é perda. É conquista.

Bolsa Família: quase um milhão de famílias serão obrigadas a deixar o programa