Política e Resenha

ARTIGO – BOLSONARO, O HOMEM DAS TRÊS ANISTIAS

 

(Padre Carlos)

Jair Messias Bolsonaro é um fenômeno político peculiar: consegue transformar sua trajetória, marcada por recorrentes confrontos com a legalidade, em uma espécie de epopeia do ressentimento nacional. E, convenhamos, poucos personagens da história republicana brasileira colecionam tantos atos delituosos anistiados com tamanha desfaçatez — três, para sermos precisos. A vida do ex-presidente é um épico da clemência estatal. Fosse ele um artista, seu estilo seria barroco: dramático, excessivo e ornamental — mas sempre salvo por alguma indulgência celestial ou terrena.

Comecemos pela primeira de suas indulgências. Nos anos 1980, ainda de coturno e quepe, o jovem capitão planejava o que hoje chamaríamos de terrorismo doméstico. Entre os alvos, nada menos que o sistema de abastecimento de água do Guandu, no Rio de Janeiro — um atentado contra civis que, se consumado, o aproximaria mais de um bin Laden tropical do que de um nacionalista mal compreendido. Mas o Superior Tribunal Militar, em seu zelo paternal, preferiu vê-lo como um rebelde com causas salariais. Anistia número um: o homem que explodia virou o homem promovido.

Anos mais tarde, já investido da faixa presidencial, o então chefe do Executivo protagonizou uma sequência de absurdos durante a pandemia da COVID-19. Não foi apenas negacionista — isso seria um eufemismo complacente. Foi ativista contra a vida, sabotando vacinas, promovendo aglomerações, ridicularizando mortos e endossando pseudociência com cloroquina. Resultado? Setecentas mil mortes. A CPI da Covid cumpriu seu papel institucional e produziu um relatório que teria feito corar até um rábula do baixo clero. Mas eis que surge o escudo providencial: Augusto Aras, o “engavetador-geral da República”, que transformou a PGR em Procuradoria Geral do Recreio. Anistia número dois: o homem da morte virou o homem do silêncio processual.

Agora, assistimos ao terceiro ato do drama — ou seria farsa? — bolsonarista: o pedido de anistia preventiva por crimes contra a democracia. Participação em tentativa de golpe, uso de milícias digitais, incitação à desordem institucional… A lista é longa. Só que desta vez, o enredo apresenta um novo personagem: Alexandre de Moraes, o ministro que Bolsonaro não conseguiu dobrar. “Xandão”, como virou meme nacional, representa hoje não apenas um juiz, mas um símbolo da resistência institucional contra o banditismo político travestido de patriotismo barato.

A estratégia do ex-presidente é conhecida: cometer os crimes, clamar perseguição, acionar a base emocional de seus seguidores e pedir anistia em nome da paz nacional. Tudo isso com a mesma retórica de boteco usada para governar: misto de vitimismo, ameaça e ignorância performática.

Mas talvez seja chegada a hora de encerrar esse ciclo. O Brasil precisa escolher entre ser uma república de leis ou uma república de indulgências para reincidentes. A democracia, para existir de verdade, exige memória, verdade e justiça. Não há civilização possível se o terrorista de ontem vira o herói de hoje, se o negacionista da vacina vira estadista da pátria, se o golpista vira mártir da liberdade.

O que Bolsonaro quer, mais uma vez, é a impunidade consagrada por decreto moral. Mas talvez — e só talvez — esteja descobrindo que há, sim, um limite para tudo. Até mesmo para a tolerância institucional com quem nunca respeitou a instituição nenhuma.