
(Padre Carlos)
Há cidades que crescem e se reinventam sem olhar para trás — e há aquelas que entendem que o futuro se constrói sobre os alicerces do passado. Vitória da Conquista, com sua história pulsante e seu papel cultural no coração da Bahia, parece caminhar pela segunda via. O recente trabalho do Núcleo de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Município é mais do que um gesto técnico: é um ato de amor à memória coletiva.

A visita técnica realizada nesta segunda-feira (6) a imóveis emblemáticos — como o prédio da Prefeitura, o Solar dos Fonsecas, a Casa de Glauber Rocha e a Câmara de Vereadores — marca o início de um processo de tombamento que há muito se fazia necessário. Essas construções não são apenas paredes antigas; são testemunhos silenciosos de gerações que ajudaram a erguer a alma conquistense. Nelas, o tempo deixou suas marcas — não como ruína, mas como herança.
A prefeita Sheila Lemos, ao afirmar que “essas edificações trazem a verdadeira identidade de Vitória da Conquista”, toca o cerne da questão: o patrimônio é a expressão mais autêntica da nossa identidade. Preservar esses casarões é resgatar a dignidade de uma cidade que se recusa a apagar sua própria história em nome da pressa e da especulação imobiliária. Como lembrou a professora e jornalista Mary Weinstein, “preservar o patrimônio é preservar quem somos” — uma verdade que vai muito além das fachadas; é uma questão de pertencimento e de autoestima coletiva.
Não há cidade moderna sem memória, nem progresso sem raízes. O tombamento desses imóveis é uma resposta civilizada à destruição silenciosa que muitas vezes acompanha o avanço urbano. O arquiteto Rafael Celino foi preciso ao afirmar que o trabalho está alinhado ao Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), criando zonas de interesse histórico-cultural. Essa medida é essencial para que o crescimento da cidade não se transforme em esquecimento.
O assessor especial de Cultura, Alecxandre Magno, destacou que o processo começou ainda na gestão do ex-prefeito Herzem Gusmão e agora ganha forma concreta com a atual administração. Trata-se, portanto, de um esforço que ultrapassa governos e gestões — um pacto com o tempo, com a memória e com o próprio sentido de comunidade.

Preservar casarões, praças e edificações antigas é mais do que conservar tijolos e telhas: é manter viva a narrativa de quem fomos e de quem queremos continuar sendo. Quando uma cidade esquece suas origens, ela perde o rumo. Quando as lembra e as celebra, ela renasce com mais força, beleza e sentido.
Vitória da Conquista, ao investir na proteção do seu patrimônio, investe na alma de seu povo. E talvez seja essa a mais bela forma de projetar o futuro: com respeito, memória e gratidão.




