(Padre Carlos)
A presença da China na Bahia deixou de ser apenas uma pauta econômica — tornou-se uma questão de geopolítica e soberania nacional. Em menos de uma década, o Estado viu erguer-se diante de seus olhos uma constelação de mega projetos bilionários, de ferrovias a fábricas de automóveis elétricos, de pontes monumentais a parques eólicos, todos sob a mesma bandeira vermelha do dragão asiático.
A Ponte Salvador-Itaparica, avaliada em mais de R$ 11 bilhões, não é apenas uma obra de engenharia — é um símbolo do novo tempo. Conduzida por consórcios chineses, ela promete reconfigurar a geografia econômica do litoral baiano, encurtar distâncias e abrir caminhos para o turismo e a logística. Mas, por trás dos cabos de aço e do concreto armado, há um fio invisível de dependência estratégica: o capital chinês.
No interior, o outro braço dessa presença se chama FIOL – Ferrovia de Integração Oeste-Leste. Ligada ao Porto Sul, em Ilhéus, ela conecta o sertão produtor de grãos e minérios ao oceano Atlântico — uma rota pensada para escoar riquezas do interior brasileiro diretamente às embarcações chinesas. A Bahia, nesse cenário, deixa de ser apenas um Estado receptor de investimentos e passa a ser um nó logístico na nova Rota da Seda Sul-Americana.
Há também o vigor industrial representado pela BYD, que transformou a antiga planta da Ford em um polo de tecnologia verde. Com mais de R$ 5,5 bilhões em investimentos, a montadora promete gerar 20 mil empregos e lançar o primeiro motor híbrido etanol-elétrico do país. Um feito histórico, sem dúvida. Mas é impossível ignorar o fato de que a Bahia, outrora palco da primeira capital do Brasil, agora se torna a capital simbólica da presença chinesa no Nordeste.
Esse “modelo Bahia de diplomacia” — como vem sendo chamado o alinhamento político entre Salvador e Pequim — mostra que o Estado soube manter suas pontes abertas mesmo durante o isolamento diplomático do governo Bolsonaro. No governo Lula, esse canal floresceu, e hoje colhe os frutos de uma cooperação direta Estado-China, contornando as vias tradicionais da política externa.
Mas toda aliança carrega seus paradoxos.
Se, de um lado, há crescimento, empregos e tecnologia, do outro, há riscos de dependência e vulnerabilidade ambiental. Projetos como o Porto Sul e a própria FIOL enfrentam críticas severas por afetarem áreas de preservação e comunidades tradicionais. É a velha contradição do progresso: o que se ganha em modernização pode se perder em autonomia e equilíbrio ecológico.
A China, ao investir na Bahia, não faz caridade — faz estratégia. Cada ponte, cada turbina e cada quilômetro de ferrovia fazem parte de um xadrez global de poder e influência, onde o tabuleiro é o território baiano.
E é preciso perguntar: quem realmente está conduzindo esse jogo?
A história mostra que as nações que abrem suas portas ao capital estrangeiro sem definir seus próprios limites acabam transformando o desenvolvimento em dependência. A Bahia tem diante de si uma oportunidade única de se tornar um polo de tecnologia e energia renovável, mas deve fazê-lo sem abdicar de sua soberania, de seu meio ambiente e de seu protagonismo político.
No fim das contas, a presença chinesa na Bahia é tanto caminho quanto encruzilhada.
Um salto para o futuro — ou o início de uma nova forma de tutela econômica.
Cabe aos baianos, e aos brasileiros, decidir se esse dragão é parceiro de voo ou sombra sobre o pôr do sol da independência.





