Política e Resenha

ARTIGO – Congresso repele aumento do IOF, mas finge não fazer parte da mesma engrenagem de privilégios

 

 

(Padre Carlos)

A contundente votação na Câmara dos Deputados — 346 votos contra 97 — que aprovou a urgência do projeto para derrubar o decreto do governo Lula sobre o aumento do IOF, foi vendida como uma reação corajosa do Parlamento contra mais um ajuste fiscal baseado em aumento de tributos. Mas a narrativa oficial esconde um detalhe incômodo: o Congresso Nacional age como se não fizesse parte da mesma máquina estatal repleta de privilégios, distorções e desperdícios.

O presidente da Câmara, Hugo Motta, discursou em nome do “cansaço” da sociedade com a elevação da carga tributária, e tem razão ao apontar a fadiga da população brasileira diante de tantos impostos. Mas quando o Parlamento diz que não aceita mais aumentos de tributos, precisa também olhar no espelho: quantos privilégios, quantos penduricalhos, quantos gastos secretos ainda são mantidos nos gabinetes, nos salários, nos auxílios e nos conchavos de bastidores?

Essa indignação seletiva escancara o que muitos já sabem: o Congresso tem nome, sobrenome — e até CPF. Chama-se mercado. Chama-se elite política. Chama-se burguesia institucionalizada. A mesma que se diz defensora do povo enquanto protege suas verbas, suas emendas, suas sinecuras. Quando rejeita o aumento do IOF, o Parlamento o faz mais por pressão econômica e política do que por real compromisso com o contribuinte.

Por outro lado, não se pode poupar o governo Lula. A decisão de aumentar o IOF sobre operações de câmbio foi, no mínimo, insensível com o momento atual do país. O governo precisa sim fazer o dever de casa. Não se sustenta mais uma política econômica que aposte apenas na ampliação da arrecadação sem enfrentar as raízes do desequilíbrio fiscal: os gastos improdutivos, os subsídios desnecessários, as renúncias fiscais mal explicadas e os gastos com privilégios de Estado.

O Brasil exige uma reforma fiscal verdadeira, com justiça tributária, desoneração da produção e taxação progressiva sobre grandes fortunas e lucros exorbitantes. Exige também cortes nos gastos supérfluos, nos privilégios do funcionalismo de elite e na farra orçamentária que beneficia poucos e pune muitos.

A crise do IOF escancarou o teatro político em que Executivo e Legislativo representam lados opostos, mas atuam no mesmo palco de conveniências. A Câmara pode rejeitar esse decreto, mas não pode continuar fingindo que não participa da engrenagem. E o governo precisa parar de empurrar o problema com a barriga — porque a paciência do povo tem limite, e o limite está cada vez mais próximo.