Política e Resenha

ARTIGO – Da Passeata dos Cem Mil à luta contra a PEC da Blindagem: a democracia se faz nas ruas

 

 

(Padre Carlos)

A história brasileira nos oferece lições que se repetem com uma insistência quase pedagógica. Em 1968, em plena ditadura militar, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque estiveram nas ruas na histórica Passeata dos Cem Mil, quando a juventude, artistas e intelectuais ergueram a voz contra a violência de um regime que pretendia calar a nação. Naquele tempo, cantar, escrever e se manifestar era um ato de coragem e resistência contra um Estado que fazia da censura e da repressão seus principais instrumentos de poder.

Quase sessenta anos depois, a cena se renova. Gil, Caetano e Chico, agora octogenários, juntam-se a Djavan para dizer não à PEC da Blindagem e à anistia dos golpistas. A presença desses homens, hoje com mais de oitenta anos, revela algo maior do que a simples persistência de uma geração: evidencia que a luta contra o fascismo e em defesa da democracia não se encerra, não envelhece, não caduca. Pelo contrário, ela se reinventa, porque os inimigos da liberdade também mudam de rosto, mas nunca desistem de avançar contra os direitos do povo.

A democracia é um organismo vivo, que não se sustenta apenas nas instituições formais, mas no vigor das ruas, na consciência crítica, no ato de dizer não diante das ameaças. Se em 1968 o grito era contra a ditadura, hoje é contra tentativas de blindagem e de perdão a crimes que atacaram o próprio coração da República. A história se repete, não como farsa, mas como advertência: não há democracia sem resistência, não há liberdade sem vigilância.

Ver Gil, Caetano e Chico, já consagrados pela arte e pela vida, retornarem ao espaço público ao lado de Djavan é um lembrete poderoso: a cidadania não tem idade. A coerência de quem, décadas atrás, arriscou a juventude pela democracia, hoje dá testemunho de que a luta é permanente e que o verdadeiro compromisso não se mede pelo tempo, mas pela fidelidade aos valores que sustentam a dignidade humana.

O fascismo pode se disfarçar, mudar de roupagem, adotar novos discursos, mas a resposta é a mesma desde sempre: resistir. Se a democracia se defendeu nas ruas em 1968, defende-se novamente agora. E continuará assim, enquanto houver homens e mulheres dispostos a carregar a tocha da liberdade, lembrando às futuras gerações que a democracia nunca é dada, mas conquistada dia após dia.