
Por: Padre Carlos
18 de Janeiro de 2026
Portugal acordou este domingo perante um espelho que reflete uma sociedade profundamente fragmentada. O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais não é apenas uma contagem de votos; é um sintoma de um tempo onde a moderação institucional, representada por António José Seguro, se vê forçada a medir forças com o populismo disruptivo e, por vezes, autoritário de André Ventura.
Como progressistas, não podemos ignorar o sinal de alerta. A subida de Ventura para os 23,5% não é um acidente de percurso, mas o culminar de uma estratégia que instrumentaliza o descontentamento legítimo — a crise na habitação, a degradação dos serviços públicos e a precariedade — para alimentar o medo e a exclusão.
A visão de André Ventura para Portugal é a antítese do que Portugal construiu desde abril de 1974. Ao propor uma “Quarta República” e uma presidência interventiva que atua como “filtro” do Governo, Ventura não propõe apenas uma reforma, mas sim uma erosão do equilíbrio de poderes. Para a visão progressista, o Presidente deve ser o garante da Constituição, não um carrasco das instituições. A ideia de utilizar a chefia de Estado para perseguir minorias através de quotas migratórias ou para inflamar a justiça com populismo penal é um retrocesso que ameaça a coesão social.
Do outro lado, António José Seguro surge como o defensor o “porto seguro”. A sua liderança é necessária para travar o avanço extremista, mas a sua campanha para o segundo turno terá de ser mais do que apenas “não ser Ventura”.
O progressismo que Seguro representa deve ser ambicioso. Não basta defender o Estado Social; é preciso refundá-lo para os desafios de 2026. A vitória de uma candidatura democrática e humanista depende da capacidade de Seguro convencer os abstencionistas e os jovens de que a estabilidade democrática é a única ferramenta capaz de produzir justiça climática, igualdade de género e uma economia que não deixe ninguém para trás.
Até 8 de fevereiro, Portugal viverá um plebiscito sobre a sua própria identidade. Estamos perante a escolha entre:
Um país que abraça a sua vocação europeia, lusófona e cosmopolita, apostando na integração e no humanismo;
Ou um país que se fecha sobre si mesmo, alimentado pelo ressentimento e pela nostalgia de uma autoridade que a história já provou ser nefasta.
A tarefa dos democratas, independentemente de filiações partidárias, é clara: é preciso demonstrar que as respostas para os problemas reais não se encontram no ódio, mas no aprofundamento da democracia. O “sistema” tem falhas, sim, mas a solução não é implodi-lo; é torná-lo verdadeiramente representativo e justo.
Nestas três semanas, não está apenas em jogo o próximo inquilino do palácio de Belém. Está em jogo a decência da nossa vida pública e o futuro da liberdade em Portugal. Que a razão e a solidariedade prevaleçam sobre o ruído.




