Política e Resenha

ARTIGO – Deputado ou modelo fotográfico?

 

(Padre Carlos)

Há deputados que, sinceramente, poderiam abrir uma conta no Instagram de influenciador. Alguns até já têm. Porque se existe algo em que são mestres — e talvez únicos — é na arte de aparecer sorridentes ao lado do governador ou de algum secretário qualquer, como se isso, por si só, resolvesse os problemas do povo que os elegeu. Confundem mandato com book fotográfico. É como se suas excelências pensassem que a política se resume a flashes, tapinhas nas costas e sorrisos perfeitamente ensaiados para a lente.

Fiscalizar? Ah, isso dá trabalho, exige coragem e, pior, pode comprometer alianças que garantem palanques, emendas e likes. Melhor se fingir de morto, desde que bem enquadrado nas selfies oficiais.

O caso da BR-415, que liga Vitória da Conquista a Barra do Choça, é um retrato — esburacado, diga-se — desse descaso. A estrada deveria estar pronta, mas virou uma armadilha a céu aberto. Buracos, acidentes, tragédias evitáveis. Milhões foram anunciados, destinados, propagandeados. E a estrada? Está lá, como metáfora do Brasil que não sai do lugar. Ou melhor, sai sim: direto para a vala da negligência.

Ninguém cobra, ninguém fiscaliza. As excelências preferem o calor dos palanques à frieza dos relatórios do TCE. São mudos diante da inércia, mas eloquentes nos posts comemorativos. Celebram promessas como se fossem realizações. E fazem pose. Sempre a pose.

A verdade é que, se houvesse eleição todo ano, a BR-415 já estaria duplicada, asfaltada, iluminada e talvez batizada com o nome de algum desses parlamentares performáticos. Porque quando o voto está em jogo, milagre acontece. Mas como a urna ainda demora, a estrada continua como está: cheia de buracos e cercada de silêncio.

Silêncio que só é interrompido pelo click das câmeras — e pelo barulho dos carros destruídos nas crateras da omissão.