
Em tempos idos, quando a palavra empenhada valia mais que contrato e um aperto de mãos selava compromissos de alma, o amigo era considerado quase um parente de escolha, uma dádiva concedida por Deus àqueles que sabiam cultivar os afetos como se cultiva a terra — com zelo, paciência e fidelidade.
O amigo de outrora não se media pelo riso fácil, tampouco pelas visitas frequentes às festas. Media-se, antes, pela constância no infortúnio, pela presença silenciosa nos momentos em que o mundo parecia ruir sobre os ombros. Era aquele que, sem pedir licença, chegava com um pão quente, um conselho sóbrio ou mesmo um olhar compreensivo, quando todos já haviam se retirado.
Havia uma elegância moral na amizade da minha infância e juventude. Os amigos liam juntos os jornais, trocavam cartas com caligrafia caprichada, discutiam política com civilidade e dividiam sonhos como quem divide um pedaço de fubá cozido na panela de ferro. A amizade era feita de palavras ditas no alpendre, de silêncios respeitados e de uma confiança que não se quebrava com a poeira das fofocas de esquina.
O amigo, naquele tempo da Pituba, do Nordeste de Amaralina e do Seminário, era uma espécie de confessor laico. Sabia segredos de família, mágoas do coração, fraquezas humanas — e os guardava como quem guarda uma relíquia. Tinha o dom de consolar sem invadir, de criticar sem ferir, de corrigir sem humilhar. Havia honra nesse ofício silencioso de bem querer.
Hoje, quando tantos “amigos” cabem num aparelho de bolso e se desfazem com um simples clique, convém recordar a nobreza da amizade das décadas de sessenta, setenta e oitenta. Porque amigo verdadeiro não é aquele que te diverte, mas o que te sustenta. Não é o que chega quando tudo vai bem, mas o que permanece quando nada mais resta.
Amigo é um abrigo. E, nos tempos em que tudo parece tão descartável, torna-se urgente resgatar o valor dessa antiga aliança de almas.




