Política e Resenha

ARTIGO – Duplicação da BR-116: Até 2030? O Sudoeste da Bahia Não Pode Mais Esperar!

 

 

José Maria Caires

Era madrugada quando o silêncio da BR-116 foi rasgado por um estrondo seco. Faróis apagados, ferragens retorcidas, um corpo estendido no asfalto quente que ainda cheirava a óleo e sangue. Mais um acidente. Mais uma família dilacerada. Mais uma mãe ajoelhada à beira da estrada da morte, perguntando por que seu filho não voltou para casa. Essa cena não é exceção; é rotina. É o cotidiano cruel de quem vive e atravessa o Sudoeste da Bahia — de Vitória da Conquista a Jequié, de Cândido Sales a Planalto e Poções — numa rodovia que virou sentença diária de risco.

A BR-116 é artéria vital do Brasil. Por ela circulam vidas, sonhos, alimentos, trabalho e esperança. No entanto, no Sudoeste baiano, essa artéria está obstruída por promessas adiadas, obras provisórias e um abandono que dói. Dói porque mata. Dói porque sufoca uma região inteira que quer apenas o direito básico de ir e vir com segurança.

Os fatos são claros e alarmantes. O Ministério dos Transportes marcou o leilão da nova concessão para novembro de 2026, depois das eleições. Isso significa, na prática, que a nova concessionária só deve assumir após 2027. E mesmo que tudo transcorra sem recursos judiciais ou transtornos — um cenário ideal e raro — o processo de concessão leva, em média, três anos para conclusão, seguidos de mais dois anos até o início efetivo das obras. A matemática é cruel: a solução definitiva só chegaria após 2030. Até lá, quantas cruzes ainda serão fincadas às margens da estrada?

Os sinais de adiamento são evidentes para quem percorre a BR-116 com os próprios olhos. O DNIT limita-se a restaurações paliativas: recapeamentos pontuais, operações tapa-buracos, remendos que maquiam o problema, mas não o resolvem. Onde deveriam surgir viadutos, surgem semáforos. Sim, semáforos em uma rodovia federal de tráfego intenso, improvisos que escancaram uma verdade incômoda: as grandes obras não virão tão cedo.

E o que mais fere não é apenas a demora. É o silêncio. Quando se afirma publicamente que a duplicação só virá depois de 2030, não há contestação oficial do governo. Nenhuma nota, nenhum desmentido, nenhuma indignação institucional. Um silêncio que grita. Um silêncio que confirma o esquecimento do Sudoeste baiano, tratado como periferia do progresso, como se nossas vidas valessem menos.

Enquanto isso, o drama humano se acumula. Caminhoneiros exaustos enfrentam ultrapassagens suicidas para cumprir prazos. Pais de família saem de casa sem saber se voltarão. Jovens que sonham com estudo, emprego e desenvolvimento veem a região isolada por um tráfego lento e inseguro que espanta investimentos e oportunidades. A economia regional sangra, estrangulada por congestionamentos e acidentes evitáveis. O asfalto absorve lágrimas de mães enlutadas, e o sangue derramado clama por justiça.

Não estamos pedindo luxo. Estamos exigindo vida. Estamos clamando por uma urgência humanitária. Cada dia sem duplicação é um dia de risco calculado imposto a quem não escolheu viver à margem. É inadmissível que uma rodovia estratégica continue sendo tratada com remendos enquanto pessoas morrem.

Mas ainda há esperança. A história mostra que quando um povo se une, o poder escuta. É hora de levantar a voz. De cobrar dos deputados, dos prefeitos, dos governadores e do governo federal um cronograma acelerado, investimentos imediatos e soluções definitivas. É hora de transformar dor em mobilização, luto em luta, silêncio em pressão.

O Sudoeste da Bahia não pode esperar até 2030. Cada adiamento custa vidas. Que esta carta aberta ecoe nos gabinetes, nas praças e nas redes sociais. Que ninguém diga que não sabia. A duplicação da BR-116 é um dever moral, uma obrigação do Estado e um direito do povo.

José Maria Caires – Movimento Duplica Sudoeste