Política e Resenha

ARTIGO – Durval Menezes: O Guardião da Memória de Vitória da Conquista

 

Padre Carlos

Há pessoas que passam pela vida deixando rastros. Outras, porém, constroem caminhos que permanecem vivos na memória coletiva de um povo. O professor Durval Lemos Menezes pertence a essa segunda categoria. Historiador, sociólogo, escritor, memorialista e educador, ele transformou o conhecimento em um serviço permanente à sociedade, ajudando gerações a compreenderem não apenas os fatos da história, mas também a identidade de Vitória da Conquista e de todo o sudoeste baiano.

Tenho a alegria — e considero um verdadeiro privilégio — de ser amigo do professor Durval. Conviver com ele é descobrir, a cada conversa, um universo de histórias, personagens e acontecimentos que dificilmente seriam encontrados nos livros didáticos. Sua memória impressiona, mas o que mais encanta é a forma generosa com que compartilha aquilo que sabe.

Uma característica que sempre desperta admiração em todos que o conhecem é sua extraordinária capacidade de recordar seus antigos alunos. Não se trata apenas de lembrar nomes. Durval consegue situar cada pessoa em seu tempo, recordar traços físicos, comportamentos, contextos familiares e até detalhes das transformações sociais vividas por cada geração que passou por suas salas de aula nas décadas de 1970, 1980 e 1990. Essa habilidade revela muito mais do que uma memória privilegiada; demonstra o respeito e o carinho que sempre dedicou aos seus estudantes.

Sua trajetória pessoal se confunde com a própria história da educação conquistense. Nascido no distrito de Iguá, em dezembro de 1941, cresceu cercado pelo ambiente intelectual de uma família comprometida com o ensino e a cultura. Ainda jovem buscou formação acadêmica fora da Bahia, ampliando seus horizontes nas áreas das Ciências Sociais, da Sociologia e da Geografia, conhecimentos que mais tarde enriqueceriam sua atuação como professor e pesquisador.

Ao longo de mais de três décadas de magistério, marcou presença em algumas das mais tradicionais instituições de ensino de Vitória da Conquista. Milhares de estudantes tiveram o privilégio de assistir às suas aulas, sempre reconhecidas pela clareza, pela profundidade das análises e por uma didática rara, capaz de transformar temas complexos em narrativas envolventes.

Sua contribuição, entretanto, ultrapassou os limites da sala de aula. Também exerceu importantes funções na administração pública, colaborando decisivamente para o fortalecimento da educação municipal e regional. Participou de iniciativas que abriram oportunidades para estudantes conquistenses, além de integrar projetos que contribuíram para o desenvolvimento do ensino superior na região, numa época em que sonhar com uma universidade pública parecia um desafio distante.

Após a aposentadoria, Durval não diminuiu o ritmo. Pelo contrário. Passou a dedicar ainda mais tempo à preservação da memória regional por meio da pesquisa e da produção literária. Seus livros tornaram-se referência para quem deseja compreender a formação política, social e cultural de Vitória da Conquista. Em suas obras, personagens populares dividem espaço com figuras históricas, revelando episódios pouco conhecidos que ajudam a explicar como a cidade se transformou ao longo das décadas.

Ler Durval Menezes é viajar pela história do sertão baiano sem perder o rigor da pesquisa nem o prazer da boa narrativa. Sua escrita consegue unir o olhar do historiador, a sensibilidade do memorialista e a capacidade analítica do sociólogo. Poucos autores conseguem estabelecer esse equilíbrio com tanta naturalidade.

Não surpreende, portanto, que diversas instituições culturais tenham reconhecido sua contribuição para a preservação da memória baiana. As homenagens recebidas ao longo dos anos representam o reconhecimento público de uma vida inteiramente dedicada ao conhecimento, à educação e à valorização das raízes do nosso povo.

Vivemos um tempo em que a velocidade das redes sociais muitas vezes substitui a reflexão, e a informação efêmera ocupa o lugar da memória. Por isso, intelectuais como Durval Menezes tornam-se ainda mais indispensáveis. Eles nos lembram que nenhuma sociedade constrói o futuro sem compreender o próprio passado.

As novas gerações encontram em seus livros uma oportunidade de conhecer personagens, acontecimentos e processos históricos que ajudaram a moldar Vitória da Conquista. Mais do que simples registros, suas obras preservam a identidade de uma cidade que cresceu sem romper os laços com sua história.

Ter a amizade do professor Durval é um presente que a vida me concedeu. Em cada encontro, aprendo que o verdadeiro intelectual não é aquele que acumula conhecimento apenas para si, mas aquele que compartilha saberes com humildade, formando consciências e despertando o interesse pela história.

Durval Menezes tornou-se uma referência não apenas pelo que escreveu ou ensinou, mas pelo exemplo de dedicação à educação, à cultura e à memória. Enquanto houver leitores dispostos a descobrir a história de Vitória da Conquista, seu legado continuará vivo, inspirando pesquisadores, professores, estudantes e todos aqueles que compreendem que preservar o passado é também construir o futuro.

Porque cidades não sobrevivem apenas de ruas, edifícios e monumentos. Elas permanecem vivas através da memória de seus homens e mulheres. E poucos contribuíram tanto para preservar essa memória quanto o professor Durval Lemos Menezes, um dos maiores intelectuais que Vitória da Conquista já produziu.