
Como dizia Drummond em seu poema “José”, diante do vazio e da perplexidade de um momento histórico sem rumo: “E agora, José?”. A Bahia, em seu cenário político, talvez esteja vivendo sua própria versão: “E agora, Gedel?”. A referência ao ex-ministro não é gratuita. Gedel Vieira Lima, com todos os seus altos e baixos, foi durante décadas a representação encarnada do MDB baiano. A imagem da família Vieira como fiadora de um partido que oscilava entre o poder e o ostracismo agora parece tremer com a proposta de federação entre o MDB e os Republicanos.
A ideia de federação, que nasceu para dar estabilidade partidária e reduzir a fragmentação, pode estar se tornando, na Bahia, um gerador de instabilidade. A fala do deputado federal e presidente estadual dos Republicanos, Márcio Marinho, é reveladora: “O partido que tem mais deputados nos estados detém o controle da federação. Se isso acontecer com o MDB, não vamos abrir mão de ter o controle da federação no estado.”
Traduzindo: o Republicanos quer garantir que não será engolido por um MDB em crise, sem bancada expressiva e com pouca presença ativa na atual conjuntura. A disputa não é só por cargos, é por território político, por comando simbólico e estratégico. A federação, que exige fidelidade de quatro anos, não é casamento de conveniência – é união estável com obrigações mútuas. E o MDB baiano, que sempre operou com liberdade estratégica, terá que decidir se entra nessa aliança de cabeça baixa ou se parte para o confronto.
A pergunta central permanece: o que será da família Vieira se a federação for concretizada com os Republicanos no comando? O MDB, outrora linha auxiliar dos governos estaduais, agora pode se ver isolado tanto da base do PT quanto da oposição. Um limbo político que, em um estado onde as alianças regionais são fluidas e pragmáticas, pode custar caro.
A federação será um divisor de águas. O tabuleiro político baiano pode ver uma mudança profunda, não apenas de nomes, mas de forças reais. O xadrez está armado. O peão do MDB está encurralado. E, diante do xeque, a pergunta se impõe com mais força do que nunca: e agora, Gedel?




