Política e Resenha

ARTIGO – Eduardo Bolsonaro: o patriota de Miami e a hipocrisia congressual em horário nobre

 

 

(Padre Carlos)

Se há algo que a nova direita brasileira aprendeu com maestria foi o ofício de conjugar o verbo “fugir” na primeira pessoa do singular. E, se possível, em inglês. Eduardo Bolsonaro — aquele que se autoproclamava embaixador informal do Brasil nos EUA, que ostentava um boné do Trump com a mesma reverência que um ministro do Supremo ostenta a Constituição — agora se recusa a voltar ao solo pátrio. A licença parlamentar de 120 dias vence, o mandato claudica, mas o patriotismo, ora, esse segue firme… nas areias de Miami.

Enquanto isso, no Palácio do Planalto Legislativo, os tambores da indignação republicana, que rufaram ruidosamente contra a ministra Carmem Lúcia por exercer sua função constitucional, estão calados. Caladíssimos. Sabe como é, a coerência custa caro e nem todo deputado está disposto a pagar com o próprio mandato.

Vamos aos fatos, já que os delírios ideológicos cuidam de si mesmos: Eduardo Bolsonaro está há quatro meses ausente da Câmara dos Deputados. Alegou “interesses pessoais” e uma genérica necessidade de “tratamento de saúde”. No entanto, tratou-se, sobretudo, de uma licença para conspirar em paz. Lá dos Estados Unidos — onde se diz exilado preventivamente —, o nobre deputado tenta vender à comunidade internacional a imagem de um Brasil dominado por uma ditadura judicial, em que seu pai é mártir e ele, uma espécie de novo Jefferson do cerrado.

Ah, os bons tempos em que as licenças parlamentares eram usadas para tratar de hérnias ou revisar discursos. Hoje, servem de salvo-conduto para quem se sente acima da lei — e, se possível, também acima do Oceano Atlântico.

A ausência prolongada, no entanto, pode ter consequências práticas. O regimento da Câmara é claro: faltas injustificadas comprometem o mandato. Mas cá entre nós, quem disse que o problema é jurídico? O real escândalo é político, institucional e moral. Trata-se de um clássico caso de deserção institucional. O deputado não apenas se ausentou fisicamente. Abandonou suas funções, sua representação popular e, principalmente, a liturgia do cargo. Tudo isso, claro, com a bênção dos seus pares, que fingem não ver a evasão em tempo real.

E o que faz o Congresso Nacional? Pede vistas. Fecha os olhos. Silencia. Os mesmos que pediram o impeachment da ministra Carmem Lúcia — por ela simplesmente cumprir seu dever constitucional — agora assistem, impassíveis, à deserção institucional de Eduardo Bolsonaro, à impunidade política dos filhos do ex-presidente e à erosão lenta, porém constante, da ética pública.

É o triunfo da hipocrisia congressual. Os indignados seletivos que dizem defender a Constituição só quando ela serve aos seus. Que bradam por democracia, desde que ela se submeta ao projeto de poder da família Bolsonaro.

A democracia, senhores, não sobrevive de discursos inflamados em tribunas decoradas com a Bíblia e a bandeira. Sobrevive de coerência, responsabilidade e presença. Sim, presença. Porque representar o povo exige mais do que vídeos em inglês no Instagram e entrevistas em canais que fazem cosplay de jornalismo.

O suplente, Missionário José Olímpio, já avisou que dará continuidade ao “trabalho” de Eduardo. Imagino que isso inclua visitas espirituais à Flórida, lives devocionais e ataques coordenados às instituições. A bancada evangélica, afinal, precisa manter sua aura de santidade mesmo quando pactua com a omissão e o oportunismo.

No fim das contas, não estamos diante de um simples abandono de mandato. Estamos diante de um ensaio perigoso de ameaça à democracia. Porque o verdadeiro risco não vem de tanques nas ruas, mas de covardes nos gabinetes — ou nos aeroportos.

E Eduardo? Segue lá, firme, de bermuda e boné, preparando talvez sua papelada para se tornar “cidadão americano”. Um gesto coerente, confesso. Afinal, há muito tempo que ele deixou de se comportar como representante do Brasil. Agora, é apenas o garoto-propaganda da impunidade política com endereço em Miami.

Se os parlamentares brasileiros ainda tiverem algum apreço pela própria história, pelo próprio regimento e pela inteligência do povo, não poderão mais fingir. Ou agem agora — ou se tornam cúmplices para sempre.