
(Padre Carlos)
Há notícias que não apenas informam — elas revelam, rasgam o véu e expõem o que muitos fingiam não ver. A investigação da Polícia Federal envolvendo a assessora da Câmara dos Deputados, Mariângela Fialek, a “Tuca”, é uma dessas. Não se trata de um caso isolado, nem de um excesso pontual de burocratas desatentos. O que vem à tona é a radiografia de um método, de uma cultura política e de um modelo de poder que transformou o orçamento público em moeda privada de negociação.
O dado mais perturbador não é apenas a suspeita de que uma assessora, ligada ao ex-presidente da Câmara Arthur Lira, tenha operado a distribuição de recursos das chamadas emendas secretas. O escândalo real é saber que, mesmo sob investigação, o mecanismo continua funcionando. A engrenagem segue girando, como se a República tivesse naturalizado o desvio, a informalidade e o desprezo pela transparência.
As anotações descritas pela Polícia Federal — comparadas, com razão, a uma “conta de padaria” — são a metáfora perfeita do que se tornou o orçamento secreto no Brasil. Milhões de reais realocados por bilhetes manuscritos, comandos verbais e despachos informais, sem critérios técnicos, sem projetos estruturantes, sem compromisso com políticas públicas de longo prazo. É o Estado reduzido a balcão de favores, e o dinheiro do contribuinte tratado como ficha de cassino político.
A reação de parte do Congresso é reveladora. Em vez de indignação institucional, o que se ouviu foi o discurso do “clima de guerra” entre os Três Poderes. Não há aqui defesa da legalidade, mas ressentimento. Não se protesta contra o esquema; protesta-se contra quem ousa investigá-lo. A crítica ao ministro Flávio Dino, relator do caso no STF, não nasce de divergência jurídica séria, mas do incômodo de ver a luz incidindo sobre áreas antes protegidas pela penumbra do poder.
O Centrão, núcleo duro desse sistema, tenta inverter a narrativa: apresenta-se como vítima de um Judiciário supostamente parcial e oportunista. Alega-se que o STF se aproveita de um momento de fragilidade da presidência da Câmara para avançar sobre as emendas parlamentares. Mas a pergunta essencial permanece sem resposta: se tudo é republicano, por que o medo? Se tudo é legítimo, por que a fúria contra a investigação?
A figura da assessora “querida”, elogiada por parlamentares como intermediária eficiente, revela outro problema estrutural: a personalização do Estado. Quando uma pessoa se torna o eixo informal por onde passam demandas, recursos e decisões, o sistema já apodreceu. A democracia não pode funcionar baseada em confiança pessoal, relações paralelas e hierarquias invisíveis. Isso não é governança; é feudo.
O mais grave é perceber que, mesmo após decisões do Supremo, promessas de transparência e discursos moralizadores, “tudo continua como antes”, como bem observou a deputada Adriana Ventura. As emendas continuam sem autoria clara, escondidas sob lideranças partidárias, com critérios nebulosos e baixa rastreabilidade. O orçamento secreto muda de nome, mas não de essência.
O Judiciário, goste-se ou não, tem a opinião pública a seu favor nesse tema. E não por acaso. O cidadão comum intui o óbvio: enquanto hospitais carecem de recursos, escolas se deterioram e municípios dependem de favores políticos, bilhões circulam em silêncio por corredores onde a formalidade foi substituída pela conveniência.
Este caso não é apenas sobre uma assessora, um ex-presidente da Câmara ou um ministro do STF. É sobre a captura do orçamento público, sobre a corrosão da transparência e sobre a resistência feroz de um sistema que se sente ameaçado quando alguém tenta devolver o dinheiro público ao domínio do interesse público.
O verdadeiro “clima de guerra” não é entre os Poderes. É entre a velha política do orçamento secreto e a exigência democrática de transparência, legalidade e responsabilidade fiscal. E, nessa guerra, não há neutralidade possível. Ou se defende a República, ou se normaliza a conta de padaria como método de governo.




