
(Padre Carlos)
“Quanto mais a gente encina, mais aprende o que enscinou” – o verso torto e sincero de um sambinha que me veio à cabeça enquanto lia Paulo Freire, me fez lembrar de um tempo especial da minha vida: o estágio final no colégio Ademário Pinheiro, na conclusão do curso de Filosofia. Ali, diante dos jovens inquietos e perguntas desafiadoras, compreendi o que talvez nenhuma teoria explicasse melhor: ensinar é se colocar em constante aprendizado.
Essa via de mão dupla chamada educação exige algo precioso: humildade. Quem ensina e acredita que já sabe tudo, que já chegou ao topo do saber, não entendeu ainda o primeiro passo da pedagogia – a escuta. E a escuta começa com o reconhecimento de que o outro, mesmo que mais jovem ou com menos “títulos”, carrega uma bagagem que pode nos ensinar algo novo.
A arrogância é uma das piores inimigas do ambiente de aprendizado. Ela pode estar presente no professor que ridiculariza uma pergunta, no aluno que menospreza a aula, ou mesmo naquele que acredita que a dúvida do colega é irrelevante. Paulo Freire nos alerta que ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo. Ou seja: não há ensino sem relação, sem troca, sem afetos.
E é na sala de aula que essas trocas se intensificam. Dúvidas “sem sentido” muitas vezes são janelas para grandes revelações. Às vezes, a pergunta que parece tola é aquela que toca na ferida do preconceito, do medo, da desinformação – e se acolhida com paciência e escuta, pode se transformar em aprendizado para todos, inclusive para o professor. A arrogância fecha portas, a humildade as escancara.
Mais do que conteúdo, ensinar é acolher o outro em sua humanidade. É reconhecer que um professor, por mais preparado que esteja, continua sendo um ser inacabado. E isso é libertador. Errar, pedir desculpas, mudar de ideia – tudo isso faz parte do processo educativo e, acima de tudo, do crescimento pessoal.
A beleza do ensinar está exatamente nisso: na construção conjunta do saber. O professor ensina, mas também aprende com cada aluno, com cada pergunta, com cada silêncio. A sala de aula é viva, dinâmica, imprevisível. E, por isso mesmo, fascinante.
Se Paulo Freire nos ensinou que ensinar exige coragem, é porque essa troca diária exige entrega. Ser professor é se comprometer com o outro, com o mundo, e com a constante reinvenção de si mesmo. O mestre que não aprende com seus alunos, repete fórmulas; o educador que escuta, transforma o cotidiano em sabedoria.
No fundo, a verdadeira pedagogia é feita não de certezas absolutas, mas de perguntas bem feitas. E ensinar é ter a coragem de aprender de novo todos os dias, mesmo aquilo que achávamos já saber.




