Política e Resenha

ARTIGO – Entre a Fé e o Vazio: O que nos dizem os números da Religião no Brasil

 

(Padre Carlos)

Quando os números falam, é bom escutá-los com atenção. Melhor ainda: é preciso saber traduzi-los, compreendê-los e colocá-los em seu devido contexto. Os dados do Censo Demográfico 2022 do IBGE sobre religião oferecem um retrato fascinante e desconcertante da alma brasileira. E como todo retrato, ele carrega luzes, sombras e sutilezas.

O que se alardeia por aí é o de sempre: o encolhimento dos católicos e o crescimento dos evangélicos. Mas isso é apenas o topo do iceberg — e perigoso é contentar-se com manchetes que escondem as camadas mais profundas da realidade religiosa no Brasil.

Vamos aos fatos. Sim, é verdade que os católicos caíram de 64,6% da população em 2010 para 52,2% em 2022. E os evangélicos subiram de 22,2% para 31%. Mas há algo mais inquietante nesse quadro: o número de brasileiros que se declaram “sem religião” alcançou 9,3%. Estamos falando de quase 20 milhões de pessoas. Um contingente maior do que a população de países inteiros.

Antes que alguém apresse-se a classificar essa multidão como “ateia” ou “agnóstica”, vale a advertência: os “sem religião” não são necessariamente inimigos da fé. Muitos têm espiritualidade própria, creem em algo, rezam à sua maneira, mas não se alinham a templos nem dogmas. Trata-se, frequentemente, de gente cansada da institucionalização da fé, da sua burocratização ou de escândalos que a corroem por dentro.

A privatização da fé é um fenômeno típico do nosso tempo. Cada um monta seu altar pessoal com peças escolhidas a dedo: um pouco de budismo, uma pitada de espiritismo, um versículo bíblico no WhatsApp e alguma frase de autoajuda. Trata-se de um mosaico individual, um menu à la carte da transcendência.

Salvador — imagine! — tem hoje o maior índice de pessoas “sem religião” entre as capitais do país: 18,5%. Na mesma Bahia do sincretismo, dos terreiros, das procissões e das festas de largo. É um dado que não apenas surpreende. Ele escancara. Alguma coisa está acontecendo no íntimo dessa religiosidade que, por tanto tempo, foi nossa marca registrada.

É claro que os católicos não devem se apressar a vestir o luto. A perda numérica não equivale necessariamente a igrejas vazias. Talvez estejamos apenas perdendo aqueles que um dia se diziam católicos por tradição, mas que nunca pisaram num templo ou compreenderam o que professavam.

O mesmo vale para os evangélicos: o termo “evangélico” tornou-se uma espécie de guarda-chuva genérico que abriga denominações tão distintas que mal conversam entre si. Pentecostais, neopentecostais, tradicionais, “renovados” e até “desigrejados” que orbitam ao redor de lideranças midiáticas.

Mas o mais importante neste momento não é medir qual grupo cresce ou encolhe. O que salta aos olhos — e interroga consciências — é o número de pessoas que simplesmente não se sentem representadas por nenhuma religião. Homens jovens, majoritariamente urbanos, que decidiram caminhar por fora das trilhas conhecidas.

A pergunta que resta às Igrejas — e aqui incluo todas, sem exceção — é clara e incômoda: o que está faltando? O que está falhando? Por que tantos se afastam? Por que tantos não se sentem acolhidos, interpelados ou sequer curiosos diante do discurso religioso?

A resposta, como tudo que envolve fé, não é simples. Mas o primeiro passo é reconhecer que estamos diante de um novo Brasil. Um Brasil que ainda busca sentido, mas que já não aceita as antigas formas de imposição. Um Brasil que exige respeito às diferenças, autenticidade na vivência da fé e coerência por parte de quem se diz mensageiro do sagrado.

Não se trata de um apocalipse religioso. Trata-se, quem sabe, de um novo recomeço. Mas, para isso, será necessário que os números do Censo deixem de ser apenas estatística e se transformem em bússola para quem quer entender o que se passa na alma brasileira.