
Padre Carlos
A política brasileira é fértil em símbolos, gestos calculados e silêncios eloquentes. O cancelamento da visita do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ao ex-presidente Jair Bolsonaro, no Batalhão da Polícia Militar conhecido como “Papudinha”, não é apenas um ajuste de agenda. Trata-se de um movimento carregado de significado político, que expõe fissuras, cansaços e dilemas estratégicos no campo da direita brasileira.
Oficialmente, a assessoria do governador justificou o adiamento por compromissos em São Paulo. Na prática, porém, o contexto revela algo mais profundo. O encontro seria o primeiro após Bolsonaro indicar o senador Flávio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência da República, gesto que reorganiza o tabuleiro da sucessão e, ao mesmo tempo, relega Tarcísio a uma posição desconfortável: a de aliado forte nos votos, mas frágil no prestígio interno do clã Bolsonaro.
Segundo informações de bastidores divulgadas pelo jornalista Gerson Camarotti, aliados próximos ao governador afirmam que Tarcísio estaria “cansado de levar rasteiras” da família Bolsonaro. Críticas públicas, desautorizações veladas e a sensação de nunca ser plenamente reconhecido como liderança autônoma começaram a cobrar um preço. Na política, lealdade sem reciprocidade costuma gerar desgaste — e, cedo ou tarde, reação.
Há ainda um fator decisivo que ajuda a explicar o recuo: a eleição em São Paulo. Tarcísio governa o maior colégio eleitoral do país e sabe que sua sobrevivência política depende menos de gestos simbólicos a Bolsonaro e mais da leitura fina do humor do eleitor paulista. Pesquisas recentes acenderam um alerta no Palácio dos Bandeirantes ao indicar que a ministra Simone Tebet surge como potencial ameaça à sua reeleição. Um dado aparentemente simples — São Paulo nunca ter sido governado por uma mulher — mostrou capacidade real de alterar intenções de voto e mobilizar um eleitorado sensível à pauta da renovação e da representatividade.
Nesse cenário, insistir numa associação excessiva com um ex-presidente preso preventivamente, envolto em controvérsias judiciais e conflitos familiares, pode ser politicamente tóxico. O eleitor médio paulista, pragmático e atento à estabilidade, pode interpretar essa proximidade não como lealdade, mas como dependência. E dependência, em tempos de incerteza, afasta mais votos do que agrega.
O gesto de Tarcísio, portanto, parece menos uma ruptura e mais um cálculo. Um recuo estratégico de quem percebe que governar São Paulo exige mais do que fidelidade ideológica: exige autonomia, equilíbrio institucional e capacidade de dialogar com um eleitorado diverso. Ao adiar a visita, o governador envia um recado silencioso, porém claro: sua prioridade, neste momento, é o governo, a reeleição e a construção de uma imagem própria — ainda que isso desagrade antigos padrinhos políticos.
A política, afinal, não perdoa hesitações prolongadas. Entre a lealdade pessoal e a sobrevivência eleitoral, Tarcísio parece ter escolhido, ao menos por agora, o caminho que julga mais racional. Resta saber se essa escolha será suficiente para blindá-lo das turbulências do bolsonarismo e da ameaça real que começa a surgir no horizonte paulista.




