Política e Resenha

ARTIGO – Entre o Menino que Fui e o Homem que Decidi Ser

(Padre Carlos)

Procurei pelo menino que fui e encontrei-me com o homem que sou. O encontro não foi pacífico. Não houve abraços fáceis nem nostalgia açucarada. Houve silêncio, espanto e uma espécie de acerto de contas com o tempo. O menino me olhava com curiosidade e cobrança; o homem, com cansaço e lucidez. Nenhum dos dois podia ser negado. Ambos me pertencem. Ambos sou eu.

Não posso mudar nenhum dos dois. O passado não aceita retoques, e o presente não tolera fugas. O menino que fui carrega sonhos interrompidos, medos mal compreendidos, entusiasmos esmagados pela dureza do mundo. O homem que sou traz cicatrizes, escolhas, renúncias, derrotas e algumas vitórias discretas, daquelas que não viram manchete, mas sustentam a alma. Negar qualquer um deles seria amputar a própria história.

O que posso — e talvez seja a única liberdade real que me resta — é fazer com eles um outro homem. Não um remendo apressado, nem uma ilusão tardia, mas uma síntese madura. Um homem que reconhece suas cinzas sem se ajoelhar diante delas. Um homem que entende que fracassos não são sentenças eternas, mas capítulos. Um homem que decidiu, hoje, renascer exatamente do lugar onde, ontem, se arrastava.

Renascer das cinzas não é um gesto épico, é um ato silencioso de coragem. É admitir o cansaço sem fazer dele morada. É aceitar a idade sem permitir que ela se transforme em cárcere. É olhar para trás com honestidade, sem ressentimento, e para frente com esperança crítica, sem ingenuidade. O renascimento verdadeiro não apaga o que fomos; ele ressignifica.

Sou um homem sexagenário que quer voar. E isso, num país e num tempo que veneram apenas a juventude e descartam a experiência, soa quase como heresia. Mas voar, aqui, não é negar o chão; é escolher não rastejar mais. É reivindicar o direito tardio — e legítimo — de buscar tudo aquilo que me pertence: a palavra livre, o pensamento crítico, o afeto sem medo, a fé sem dogma, a dignidade sem concessões.

Há quem diga que depois de certa idade o máximo que nos resta é administrar perdas. Eu discordo. Depois de certa idade, aprendemos a distinguir o essencial do supérfluo. E isso é uma forma poderosa de liberdade. O tempo deixa de ser inimigo e passa a ser critério. Não se vive menos; vive-se com mais verdade.

Procurei-me a medo. Sim, porque o autoencontro assusta. Encontrar-se é retirar as máscaras que usamos até para nós mesmos. É admitir incoerências, rever certezas, reconhecer erros que não podem mais ser corrigidos, apenas compreendidos. Mas, apesar do medo, julgo ter-me encontrado ainda a tempo de viver. E essa talvez seja a maior vitória: perceber que o tempo que resta não é sobra, é oportunidade.

Entre o menino que sonhou e o homem que sobreviveu, nasce agora um outro homem: consciente, reconciliado, inquieto. Um homem que não pede permissão ao passado nem desculpas ao futuro. Um homem que escolheu, finalmente, viver não como quem resiste, mas como quem assume a própria história e, mesmo com as mãos marcadas, insiste em voar.