Política e Resenha

ARTIGO – Entre o Teatro e o Tribunal: o Impeachment Como Arma de Guerra Política

 

(Padre Carlos)

O Brasil parece ter se acostumado a viver entre o realismo trágico e o espetáculo político. Em vez de debater ideias, confrontar projetos de país ou aperfeiçoar a democracia brasileira, o que se vê é a manipulação das instituições como armas de revide. O recente movimento no Congresso Nacional para pedir o impeachment dos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino revela mais do que uma simples insatisfação — expõe a lógica da chantagem política, do jogo subterrâneo e da instrumentalização do Estado em nome de conveniências eleitorais e interesses inconfessáveis.

A política deixou de ser projeto e virou performance. A extrema-direita, empunhando microfones como megafones de ressentimento, encontrou no “impeachment STF” um palanque perfeito. O Centrão, sempre atento à bússola da conveniência, entra na dança não por convicção, mas pelo preço. Por trás da retórica inflamada, o que se articula é uma ofensiva contra ministros que ousaram tocar onde não se toca: o orçamento secreto, as emendas de relator, o conluio orçamentário, a promiscuidade entre o público e o privado.

Alexandre de Moraes virou o rosto do enfrentamento ao golpismo. Sua atuação firme nos processos ligados ao 8 de janeiro fez dele o principal alvo da sanha bolsonarista. Já Flávio Dino mexeu com o nervo exposto do sistema: denunciou o uso abusivo das emendas parlamentares, apelidadas de “emendas PIX”, questionou privilégios e defendeu transparência. Por isso, tornou-se um inimigo declarado dos que vivem da escuridão.

Mas aqui mora o problema: o impeachment é julgamento jurídico, não palanque político. A Constituição Federal é clara. Não se afasta um ministro do STF porque ele incomoda ou porque ousou exercer sua função com independência. Não se quebra a institucionalidade porque há divergência. Transformar o impeachment em instrumento de vendetta é abrir caminho para a desordem institucional.

Não é a moralidade o verdadeiro motor dessa crise — é o cálculo eleitoral. Em ano pré-eleitoral, tudo é estratégia. Atacar o STF, travar pautas do Executivo, alimentar crises e espetáculos são formas de desgastar o governo e empilhar dividendos eleitorais. Enquanto isso, os problemas reais do Brasil seguem sem solução: educação, saúde, desemprego, segurança pública.

A pergunta que precisa ecoar é: quem esses parlamentares representam de fato? O povo brasileiro, que enfrenta as filas do SUS, a insegurança nos bairros e a carestia nos supermercados? Ou representam as empresas que financiam suas campanhas, os lobbies que pagam o silêncio, e as emendas que compram apoios?

O mais grave é a banalização do impeachment como arma política, como já se viu no passado recente. Banalizou-se o pedido de afastamento como se fosse uma moção de repúdio. Perdeu-se o senso de gravidade, o respeito pela liturgia das instituições.

A democracia não pode ser refém de revanches. O Brasil precisa mais do que nunca de maturidade institucional. De um Congresso comprometido com a Constituição e não com seus próprios umbigos. De um Supremo Tribunal Federal independente, não intimidado por ameaças. E de uma sociedade que saiba distinguir firmeza de autoritarismo, justiça de vingança.

O que está em jogo não é o destino de Alexandre de Moraes ou Flávio Dino — é o destino do Estado de Direito.

O Brasil não precisa de mais espetáculo. Precisa de Estado. Precisa de decência. Precisa de líderes que estejam à altura do momento histórico.

Enquanto Brasília ensaia suas cenas, o povo — esse sim, soberano — continua esperando por um país que funcione.