
Não há dor comparável à de um pai que sepulta sua filha. Não há poesia que alivie esse corte profundo. Mas existe, por vezes, um gesto de fé que transforma a dor em transcendência. E foi isso que presenciamos no adeus de Gilberto Gil à sua filha Preta Gil.
Com a serenidade de quem conhece os abismos da existência, e a doçura de quem viveu os píncaros da arte e da alma, Gil disse a Preta, diante do inevitável:
“Entregue-se. Deixe, o mistério vai fazer o seu trabalho. Você, aí é que é, aí é que é o grande teste do eu, do ego. Não adianta, tem uma hora que não adianta. Não confira ao ego mais nenhum poder de lhe salvar, porque só o mistério vai poder lhe salvar.”
Há uma espiritualidade que não se aprende nos livros nem nas catedrais. Ela nasce do amor, da entrega e da aceitação. É a fé da divina providência. A mesma que sustentou esse pai no instante mais amargo: deixar ir. Abrir mão de tentar reter a vida que ama. Confiar que há um Mistério maior que tudo — e que só Ele pode, no fim, salvar.
Gilberto Gil, tantas vezes aclamado como gênio da música brasileira, revelou-se agora como um mestre da fé. Não a fé de rituais ou dogmas, mas a fé que surge quando se tem que aceitar o inaceitável. A fé que diz: “Vai, minha filha. Vai com Deus. Vai com o Mistério.”
Essa fala não foi apenas emocionante. Foi uma oração. Uma prece pública e íntima ao mesmo tempo. Um ato de rendição de quem compreende que a vida não termina, apenas muda de forma. Gil nos deu, naquele momento, uma aula de espiritualidade em estado bruto — uma espiritualidade que não precisa de explicações, apenas de silêncio e reverência.
Preta Gil, mulher de luta, de luz e de alegria, partiu amparada por um amor tão profundo que foi capaz de soltá-la. Deixá-la ir. Isso, por si, é milagre. É mística.
A fé, a espiritualidade, a divina providência, o luto… tudo se condensou naquela fala. E nos ensinou que, mesmo diante da morte, há beleza. Há entrega. E há paz.
Hoje, o Brasil chora com Gil. Mas também aprende com ele. Porque no fim, o que nos salva não é o controle, nem a ciência, nem a arte — é o mistério da vida, esse fio invisível que liga os que amam para sempre.




