Política e Resenha

ARTIGO – Fim da Reeleição: Mais Gestão, Menos Campanha (Padre Carlos)

 

 

Em um momento crítico da democracia brasileira, a discussão sobre o fim da reeleição e a reforma do calendário eleitoral voltou com força ao centro do debate no Senado Federal. A proposta em curso — uma PEC que visa eliminar a reeleição para cargos executivos e acabar com as eleições bienais — pode representar um divisor de águas para a estabilidade institucional e a qualidade da gestão pública no Brasil.

O excesso de disputas eleitorais e a perpetuação do poder tornaram-se entraves reais à boa governança. O Brasil vive sob o peso de eleições a cada dois anos. Isso cria um clima de instabilidade permanente. Mal termina uma eleição municipal e já se especula quem será o próximo governador, senador ou presidente. A consequência direta é a paralisia da administração pública — um gestor não governa com tranquilidade; governa olhando o relógio da próxima campanha.

No cenário federal, discute-se a possível reeleição do presidente Lula. Na Bahia, as atenções se voltam para o futuro político do governador Jerônimo Rodrigues. A política virou uma esteira contínua de disputas, análises, cálculos eleitorais e estratégias de marketing. E o povo, mais uma vez, fica em segundo plano.

O senador Otto Alencar (PSD) que lidera a discussão da PEC foi enfático: “É impossível governar com cabeça em eleição o tempo inteiro.” Ele defende a ideia de um mandato de cinco anos, sem reeleição e com unificação das eleições. A medida visa devolver ao governante a serenidade necessária para realizar, e não apenas prometer.

Em artigo recente no jornal O Globo, o jornalista Fernando Gabeira alertou para um ponto importante: a democracia não é imortal. Ela precisa de oxigênio político, de reformas estruturais e de respostas eficientes à sociedade. O excesso de escândalos e a ausência de entregas reais corroem a confiança popular. E nesse vácuo, o autoritarismo costuma bater à porta.

A população quer gestão. Quer saúde funcionando, educação de qualidade, segurança de verdade e um Estado que planeje e realize. Mas o que temos é um sistema político viciado em eleição. Um ciclo contínuo onde os interesses partidários suplantam o interesse público.

O fim da reeleição e a unificação do calendário eleitoral seriam avanços civilizatórios. Não se trata de enfraquecer a democracia, mas de fortalecê-la. Um governante que sabe que não poderá se reeleger, trabalhará com foco na entrega — e não na autopromoção. A democracia precisa de tempo para respirar, amadurecer e gerar frutos concretos para o povo.

Que o Congresso Nacional tenha coragem de romper com a lógica da perpetuação do poder e abrace a lógica da renovação institucional. O Brasil precisa de mais trabalho e menos palanque. Chegou a hora de apostar em um novo modelo: menos eleição, mais gestão.