
Padre Carlos
A última sessão do ano legislativo da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista, realizada nesta sexta-feira (19), revelou mais do que um rito formal de encerramento. O discurso da vereadora Lara Fernandes expôs um elemento cada vez mais raro na política brasileira: a consciência de que mandato não é propriedade pessoal, mas resultado de uma rede de relações, compromissos e responsabilidades públicas. Em tempos de radicalização, vaidades infladas e discursos vazios, a gratidão apresentada não soou como retórica, mas como balanço político de um primeiro ano de atuação parlamentar.
Ao agradecer colegas vereadores, servidores da Casa Legislativa e assessores, Lara Fernandes reconheceu algo fundamental para o funcionamento da democracia local: a política não se faz sozinha. A engrenagem institucional depende de pessoas invisibilizadas no debate público, mas essenciais para que o Legislativo cumpra seu papel fiscalizador, propositivo e representativo. Esse reconhecimento revela maturidade política e compreensão do processo legislativo.
Mais significativo ainda foi o destaque dado às emendas parlamentares destinadas pelo deputado federal Márcio Marinho. Em um país onde a política muitas vezes se perde em disputas ideológicas estéreis, a lembrança de recursos concretos para a saúde pública devolve sentido ao mandato. Os R$ 800 mil para a implantação do Centro de Reabilitação Intelectual no CEMERF, voltado para crianças neuroatípicas, os R$ 100 mil destinados à APAE e os R$ 550 mil para equipamentos e materiais de unidades de saúde não são números frios. Representam cuidado, inclusão social, dignidade humana e políticas públicas que impactam diretamente a vida das famílias conquistenses.
Ao agradecer à prefeita Sheila Lemos, ao vice-prefeito Aloysio Alan e aos secretários municipais, a vereadora sinalizou algo relevante para o cenário político de Vitória da Conquista: a necessidade de diálogo institucional entre Legislativo e Executivo. Não se trata de submissão, mas de cooperação responsável. Governar uma cidade do porte de Conquista exige articulação, planejamento e convergência mínima em torno do interesse público, especialmente nas áreas de saúde, assistência social e desenvolvimento urbano.
O reconhecimento de projetos sociais como o Começar de Novo, a Patrulha Solidária e o Instituto Oxente reforça uma visão ampliada de política pública. Nem tudo nasce dentro do gabinete ou da prefeitura. Muitas das transformações sociais mais profundas emergem da sociedade civil organizada, do voluntariado e de iniciativas comunitárias que o poder público precisa apoiar, fortalecer e não sufocar com burocracia.
Ao estender seus agradecimentos a empresários, empresas de transporte coletivo, construtoras, moradores e parceiros diversos, Lara Fernandes apontou para uma verdade frequentemente ignorada: o desenvolvimento econômico e social de uma cidade depende da corresponsabilidade entre poder público e iniciativa privada. Quando essa relação se dá de forma transparente e orientada pelo bem comum, os resultados aparecem.
Por fim, ao agradecer à família e à população que a elegeu, a vereadora tocou no núcleo ético da política. Mandato é sacrifício, exposição e renúncia. Reconhecer o peso que isso impõe à vida familiar e reafirmar o compromisso com quem mais precisa é um gesto que humaniza a atuação parlamentar e resgata a confiança na política institucional.
O primeiro ano de mandato de Lara Fernandes, à luz de seu discurso, não se apresenta como espetáculo, mas como construção. Em uma conjuntura nacional marcada pela descrença, Vitória da Conquista precisa valorizar experiências políticas que apostam no trabalho concreto, na gratidão pública e no cuidado com os mais vulneráveis. Política, quando bem exercida, ainda pode ser instrumento de esperança.




