
(Padre Carlos)
Em um país democrático e regido por leis, quem determina o destino de um réu não é o sentimento da maioria nem o calor das ruas — é a Constituição e o devido processo legal. A nova pesquisa do Datafolha, que aponta uma divisão quase milimétrica entre brasileiros que desejam ver Jair Bolsonaro preso (48%) e os que o preferem livre (46%), não tem e não pode ter qualquer valor decisório no julgamento do ex-presidente. Justiça não se faz com enquete. Se fosse assim, aboliríamos os tribunais e passaríamos a deliberar sentenças por voto popular.
Transformar uma pesquisa de opinião em instrumento de pressão sobre o Supremo Tribunal Federal é, além de um equívoco técnico, um perigoso atentado contra a institucionalidade. O Datafolha, ao divulgar esse tipo de levantamento, pode até estar cumprindo sua função jornalística. Mas a forma como esse dado é instrumentalizado pela grande imprensa — em especial pela Folha de S.Paulo, que parece mais interessada em pautar emocionalmente a opinião pública do que explicar juridicamente os fatos — presta um desserviço ao Brasil.
A direita bolsonarista sabe disso. E é por isso que se mobiliza, aqui e no exterior, para deslegitimar o STF. A cruzada de Donald Trump, ao alegar “perseguição” contra Bolsonaro, não é altruísmo ideológico. É geopolítica eleitoral. Ele tenta transformar um aliado condenado pela Justiça brasileira em mártir da guerra cultural global. Com isso, ataca nosso sistema judicial e ainda lucra politicamente impondo tarifas contra o Brasil — como se fôssemos colônia.
O filho 03, Eduardo Bolsonaro, mudou-se para os Estados Unidos e atua como lobista internacional da impunidade. Trabalha para convencer políticos e formadores de opinião nos EUA de que seu pai é vítima, não réu. Esse movimento serve tanto para salvar o clã quanto para atacar um ministro do Supremo — Alexandre de Moraes — que virou símbolo do combate à tentativa de golpe de Estado no Brasil.
Os números da pesquisa — ainda que tecnicamente válidos — são reflexo de uma guerra de narrativas e de bolhas ideológicas. Evangélicos, sulistas, eleitores de classe média baixa tendem a proteger Bolsonaro. Já nordestinos, pessoas de baixa renda e petistas o rejeitam. Essa segmentação, longe de resolver o problema, apenas mostra o quanto estamos fraturados enquanto nação.
Mas a justiça não pode ser pautada por bolhas. O processo que julgará Bolsonaro não é político, embora tenha consequências políticas. É judicial. E se os ministros do Supremo cederem à tentação de responder à opinião pública — seja para agradar a maioria ou para evitar confronto com uma minoria barulhenta — estarão rasgando a toga.
O que está em jogo não é apenas o futuro de um ex-presidente. É a capacidade do Brasil de punir quem atenta contra a democracia, ainda que tenha milhões de seguidores. O julgamento de setembro será um divisor de águas: ou consolidaremos um sistema de justiça capaz de responsabilizar os poderosos, ou mergulharemos numa era de relativização institucional onde cada político julgado poderá alegar perseguição e recorrer ao apadrinhamento internacional.
Pesquisas medem opinião. Tribunais aplicam a lei. E se quisermos viver em um país justo, é bom que continuem separados.




